Léa Dias

Espaço do Autor |

Edufba:  É um prazer tê-la conosco no Espaço do Autor. Conte um pouco sobre o seu percurso acadêmico e profissional e sua atual área de atuação.

Léa Dias: Antes de tudo, expresso meu agradecimento à Edufba, pela excelência e cuidado no processo de edição e publicação do meu livro. Na impossibilidade de aludir a tantos nomes, destaco a Flávia Goulart Rosa, diretora da Editora, e Ana Carolina Matos, responsável pela capa e projeto gráfico. Nasci e morei, até os oito anos, em casa isolada no meio rural da cidade de Monte Santo (BA), onde não havia água encanada nem luz elétrica. Não tive acesso à educação escolar na primeira infância. Fui alfabetizada por minha mãe e, com meu pai, aprendi a realizar pequenas operações matemáticas. Nesse contexto, com o propósito de garantir aos filhos o acesso à instrução formal, meus pais decidiram mudar-se para a cidade de Euclides da Cunha. Estudei a maior parte do ensino fundamental e do ensino médio no Educandário Oliveira Brito, instituição pública de ensino na qual, posteriormente, atuei como professora de Língua Portuguesa. Quando cursei o ensino médio, dois cursos eram oferecidos na cidade: Contabilidade e Magistério – este último geralmente era a escolha dos estudantes mais pobres, por precisarem de ingresso rápido no mercado de trabalho. Havia também – e infelizmente continua até hoje – a possibilidade de os jovens tentarem a vida em São Paulo em situações completamente desfavoráveis à continuidade dos estudos. No meu caso, optei pelo Magistério.

Concluído o curso, consegui meu primeiro emprego, aos dezessete anos. O desejo de estudar, no entanto, superou a necessidade de trabalhar. Larguei o emprego e ingressei em um curso de graduação em Letras com habilitação em língua inglesa, em uma pequena cidade do interior de Pernambuco. Curso universitário é alegria recente em Euclides da Cunha! Lembro-me de ter estudado para o vestibular com livros emprestados por um senhor que havia sido meu professor de História no ensino médio. Não tive o privilégio de cursar a graduação em universidade pública. Como fiquei ao longo do curso morando em república com pessoas amigas, estudar em instituição privada ficou menos custoso para meus pais do que arcar com minhas despesas em Feira de Santana ou Salvador, mesmo com a possibilidade de matrícula em universidade pública. Como eu me destacava nos estudos, a professora de redação sempre me solicitava pequenas ajudas nas aulas, em uma espécie de monitoria de ensino voluntária, e vez ou outra pagava minha mensalidade no curso. Por indicação dela, consegui emprego como professora de língua portuguesa numa escola de ensino fundamental da cidade.

Desse modo, conciliei trabalho e estudo na maior parte da graduação, como ainda continua a ser realidade na vida de muitos estudantes. Fui a primeira pessoa da família a conquistar um diploma de graduação. De volta à cidade de Euclides da Cunha, logo fui aprovada em concurso público promovido pela Prefeitura Municipal para ministrar aulas de língua portuguesa. Algum tempo depois, aprovada em outro concurso público, passei a lecionar língua portuguesa na cidade de Serrinha. Nessa época, fui aprovada para o Curso de Mestrado em Literatura e Diversidade Cultural na Universidade Estadual de Feira de Santana, onde defendi dissertação sobre a obra do escritor Euclides da Cunha, sob orientação dos queridos professores Rubens Alves Pereira e José Carlos Barreto de Santana. Foram tempos muito prazerosos, devido à convivência com tantas pessoas maravilhosas que a vida se encarregou de manter sempre bem guardadas no coração. E foram também tempos muito difíceis, pelas dificuldades enfrentadas no percurso, sobretudo em relação ao excesso de carga horária de trabalho. A exaustão era imensa.

Talvez atendendo aos clamores do meu corpo excessivamente cansado, quase no final do Curso de Mestrado fui acometida por um grave problema de saúde. Apesar do iminente medo da morte, nos cinquenta dias de internação em hospital – período em que fui submetida a duas cirurgias de grande porte na coluna –, a sensação que me acalentava é que meu corpo havia encontrado repouso. Concluí a escrita da dissertação utilizando colete ortopédico toraco-lombar. Deixei de utilizá-lo dias antes da defesa. Fui a primeira pessoa da família a conquistar o título de mestra e continuo a única. Não demorou muito, fui aprovada em concurso público para a Universidade do Estado da Bahia e pude viver a alegria de trabalhar em uma única cidade. Após um tempo na universidade dedicada ao ensino, à extensão e às pesquisas sobre a obra do escritor Euclides da Cunha, fui aprovada em seleção para doutoramento no Programa de Pós-Graduação em Literatura e Cultura da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Não mais obrigada a conciliar trabalho e estudo, pois dispensada de minhas funções na Uneb, pude dedicar-me integralmente ao curso durante quatro anos, sob a preciosa orientação da querida professora Evelina Hoisel, desfrutando de um privilégio/direito que deveria ser de todos aqueles que acreditam na educação como caminho para melhorar a vida das pessoas.

Edufba: Quando e como surgiu o seu interesse por Euclides da Cunha?

LD: Sempre gostei muito de ler. Quando criança – primeiro na zona rural, depois na cidade –, a primeira coisa que fazia ao receber o livro de língua portuguesa era ler todas as histórias. Embora com pouca instrução escolar (e talvez por isso), na medida do possível, meus pais nunca deixaram faltar em nossa casa livros para ler. Durante a infância e adolescência, também fui leitora voraz de revistas em quadrinhos. Li diversos livros da Série Vagalume, da Editora Ática, livros de Pedro Bandeira e clássicos da literatura brasileira e universal – a maioria emprestada pela Biblioteca do Educandário Oliveira Brito, onde cursei o ensino fundamental II e o ensino médio.

Quando consegui meu primeiro emprego, também usava parte do que ganhava para comprar livros. Os Sertões foi um dos primeiros livros que adquiri (uma edição bem simples, da Ediouro, que ainda mantenho comigo, ao lado de outras mais adequadas às pesquisas). Mas tive receio de enfrentá-lo, porque todos me diziam tratar-se de uma obra muito difícil. Durante anos o livro permaneceu na estante da casa como se fosse um objeto sagrado. Passei, então, a comprar livros críticos sobre Os sertões. Ainda assim, faltou-me coragem para iniciar a leitura, mesmo durante a graduação em Letras e a Especialização em Estudos Literários, na Uefs. Somente quando eu precisava de um projeto para me inscrever no Mestrado em Literatura e Diversidade Cultural na Universidade Estadual de Feira de Santana é que ousei enfrentar a obra mais famosa do escritor Euclides da Cunha. Como aluna do Mestrado, tive a oportunidade de fazer, pela primeira vez, uma visita orientada ao Parque Estadual de Canudos. Também nesse período participei de duas Semanas Euclidianas em São José do Rio Pardo (São Paulo), cidade conhecida como a meca do euclidianismo.

Na primeira dessas viagens, fui calorosamente recebida pelo amigo Guilherme Félice Garcia, que me batizou no movimento euclidiano às margens do rio Pardo. Momentos depois, no tradicional e divertido passeio ao Cristo, estimulada por meu “sacerdote”, subi de joelhos os três primeiros degraus do monumento, numa referência às três partes de Os sertões: “A terra”, “O homem” e “A luta”. São esses apenas alguns momentos de descontração possíveis de serem vivenciados por aqueles que visitam a cidade paulista, muito importantes para que o euclidianismo extrapole a caracterização de movimento acadêmico e intelectual e ganhe também a conotação de movimento afetivo. Voltei a São José em anos posteriores para participar das Semanas Euclidianas. Diz a lenda que quem experimenta as águas do rio Pardo jamais consegue abandonar Euclides da Cunha e Os sertões. Seja pela magia das águas que bebi, seja pelos muitos amigos que conquistei, seja pelos textos que leio (muitas vezes destacando aspectos ainda não contemplados pela crítica), o tempo só tem aumentado a paixão por tudo relacionado à vida e à obra do escritor Euclides da Cunha. No Campus XXII da Universidade do Estado da Bahia, onde atuo como professora de Literatura Brasileira, continuo dedicada às pesquisas que já me trouxeram tantas alegrias e realizações pessoais. Dentre estas, a possibilidade de ter-me tornado a primeira doutora da família, com a defesa da tese que deu origem ao livro “Euclides da Cunha em terras baianas e amazônicas: impressões de um viajante sobre sertões brasileiros e outros espaços”.

Edufba: No livro “Euclides da Cunha em terras baianas e amazônicas: impressões de um viajante sobre sertões brasileiros e outros espaços”, você dá ênfase ao olhar subjetivo que Euclides da Cunha volta para os sertões baianos e amazônicos, durante sua cobertura da Guerra de Canudos e sua participação na Comissão Brasileira de Reconhecimento do Alto Purus, nos anos de 1897 e 1904, respectivamente. Em que contexto histórico essas duas expedições ocorreram?

LD: A busca pela objetividade científica e historiográfica é marca do discurso euclidiano. A subjetividade diz respeito à consciência de que a linguagem é sempre insuficiente para aludir ao real. Essa consciência marca a escrita de Os sertões, dos ensaios amazônicos e de outros textos menos conhecidos, como a conferência “Castro Alves e seu tempo”, o prefácio “Antes dos versos” e os artigos “Estrelas indecifráveis”, “A verdade e o erro” e “A ideia do ser”, que também compõem o corpus de pesquisa do livro “Euclides da Cunha em terras baianas e amazônicas: impressões de um viajante sobre sertões brasileiros e outros espaços”.

Em 7 de agosto de 1897, Euclides chega à Bahia como correspondente de guerra do jornal O Estado de S. Paulo, com o objetivo de realizar a cobertura da Campanha de Canudos. Permanece alguns dias na capital, fazendo pesquisas sobre o tema em livros, arquivos e nas redações de jornais do estado. Em 6 de setembro, chega a Monte Santo, onde estava concentrada a base de operação das forças republicanas. Chega a Canudos no dia 16 de setembro e lá permanece até 3 de outubro de 1897, dois dias antes do término do conflito. O escritor havia sido nomeado adido militar pelo Presidente da República, Prudente de Moraes, e estava na viagem acompanhando o Ministro da Guerra, o marechal Bittencourt. A Campanha de Canudos foi o primeiro evento histórico brasileiro a ter cobertura diária na imprensa. Na época, houve uma potente campanha propagandística veiculada pela imprensa brasileira e internacional, que não somente acompanhou como também precedeu e preparou a campanha bélica contra os belo-montenses. Os textos jornalísticos de Euclides da Cunha publicados no calor da hora seguem, de certo modo, essa tendência, já que o autor estava alinhado ao saber científico da época, à instituição promotora da guerra (a República) e a um jornal conservador. Porém, quando incorporadas ao discurso de Os sertões, publicado cinco anos após o término da guerra, as leituras sobre Canudos recebem a tonalidade de libelo contrário ao Estado e favorável aos mártires de Canudos.

A segunda viagem mais importante para a carreira intelectual e profissional de Euclides da Cunha foi aos sertões amazônicos, de meados de dezembro de 1904 ao início de janeiro de 1906, nomeado pelo barão do Rio Branco como chefe da Comissão Brasileira de Reconhecimento do Alto Purus, na fronteira entre o Brasil e o Peru, com a missão de fazer o levantamento cartográfico do rio. Como resultado da expedição, destaca-se Peru versus Bolívia, escrito a pedido do Barão do Rio Branco, num contexto em que os dois países estavam envolvidos em um litígio de fronteiras. O tom diplomático do livro contribuiu para que as terras do Acre, envolvidas na disputa, fossem definitivamente incorporadas ao Brasil. As experiências da viagem estão registradas nos diversos ensaios amazônicos que seriam utilizados na composição de Um paraíso perdido, livro que o autor não chegou a concluir, devido à morte prematura. Os escritos extrapolam as funções para as quais o escritor fora inicialmente designado, pois apresentam forte conotação política favorável às populações exploradas da Amazônia. “Entre os seringais”, por exemplo, é um dos primeiros textos brasileiros a abordar a infração aos direitos humanos em território nacional. No ensaio, o autor possibilita uma reflexão sobre o sistema comercial do aviamento, utilizado de forma ampla na Amazônia na virada do século XIX para o século XX, ao denunciar as injustiças impostas aos trabalhadores na selva, a maioria emigrantes nordestinos, os quais considera os principais responsáveis pela opulência financeira da região amazônica, sobretudo durante o período áureo em que a borracha das seringueiras tornou-se o produto econômico mais importante. Em “Judas-Asvero”, o escritor se apropria de um ritual celebrado pelos seringueiros do Alto Purus, no sábado de Aleluia, para protestar contra o trabalho semiescravo a que eram submetidos os sertanejos migrantes nos seringais do Acre. Em “Impressões gerais”, aparecem críticas enfáticas à organização dos seringais. O sistema de aviamento sob o qual eram regidos é descrito como organização criminosa do trabalho. “Brutalidade antiga”, cujo manuscrito se encontra desaparecido, versa sobre as injustiças características da exploração da borracha e do trabalho servil que o acelerava, mais especificamente sobre os maus-tratos impostos às tribos indígenas, desalojadas pelas incursões da exploração do látex. O ensaio seria incluído dentre os textos que compõem o livro À margem da história, publicado no Porto, em Portugal, em setembro de 1909, mas os editores optaram pela exclusão, em razão das denúncias feitas contra os portugueses que escravizavam e chacinavam índios na Amazônia.

As viagens de Euclides da Cunha são movidas pelo desejo de ver e estudar de perto os sertões brasileiros, para chamar a atenção de seus compatriotas para o outro indesejado, mantido à margem da história, da geografia e da literatura nacionais. Tanto nos textos sobre Canudos quanto nos ensaios amazônicos, o autor disserta sobre as mazelas sociais que marcaram os primeiros anos da República, fazendo da escrita um instrumento político de denúncia, de ação social, com o objetivo de promover a integração das populações marginalizadas dos sertões ao rol das discussões sobre as demandas nacionais.

Edufba: O que faz do escritor fluminense uma boa fonte para revisitar esses eventos?

LD: Euclides da Cunha é uma boa fonte para discussões sobre injustiça social. Em “Notas de leitura”, datado de 6 de agosto de 1888, com o escritor aos vinte e dois anos de idade, já se percebe sua inclinação para a defesa dos marginalizados, quando destaca que terá cumprido mal seu destino se não tiver oportunidade de, pelo menos uma vez, erguer a voz em favor de algum “infeliz, abandonado de todos”, e arriscar, para tanto, todas as energias de seu cérebro, todos os seus ideais, o seu futuro, a sua vida. Pouco depois de proclamada a República, em correspondência ao pai datada de 14 de junho de 1890, o escritor acentua sua decepção com o novo regime, declarando que Benjamin Constant, seu “antigo ídolo”, havia descido “à vulgaridade de um político qualquer, acessível ao filhotismo, sem orientação, sem atitude, sem valor e desmoralizado”. Em 1894, mais uma vez em oposição à política republicana, numa ação que lhe rendeu uma punição do Exército, Euclides envia cartas à Gazeta de Notícias, datadas de 18 e 20 de fevereiro, em protesto contra a execução sumária de prisioneiros políticos, solicitada pelo senador florianista João Cordeiro. Os sertões, publicado em dezembro de 1902, apresenta a criticidade já delineada nessas situações anteriores. O autor condena a selvageria do Exército, apesar de seu histórico de ligação com a instituição republicana, e se projeta como o advogado dos sertanejos “assassinados por uma sociedade pulha, covarde e sanguinária”, conforme acentua em carta ao amigo Francisco Escobar, datada de 21 de abril de 1902. Não fosse a morte prematura, a defesa das populações marginalizadas da Amazônia também teria sido a tônica de seu segundo livro vingador, Um paraíso perdido, conforme permitem antever as denúncias sociais feitas nos ensaios amazônicos, cuja potência discursiva deixaram em segundo plano (e atualmente praticamente esquecido) o objetivo principal da viagem – a demarcação de fronteiras e o reconhecimento hidrográfico no Purus.

Edufba: No início do livro, você menciona que estudar Euclides da Cunha, nos dias de hoje, permanece sendo um desafio. A que se deve essa dificuldade e o que torna esse desafio recompensante?

LD: Os sertões é o texto mais estudado de Euclides da Cunha. Passados mais de cem anos da publicação, o livro continua tema de estudo nas mais diferentes áreas do conhecimento – Estudos Literários, História, Geologia, Jornalismo, Comunicação, Sociologia, Geografia, Antropologia, Etnografia etc. São diversos os romances europeus e latino-americanos que rememoram a obra, diversas as produções culturais que retomam suas páginas como ponto de partida para falar de Canudos e muitas outras que a elas retornam mesmo sem o interesse de aludir ao conflito baiano. O próprio Euclides da Cunha tem se projetado na história como um texto sempre visitado pela crítica. Em Euclides da Cunha: bibliografia comentada (2001), Adelino Brandão elenca 9.372 verbetes sobre Euclides da Cunha e sua obra. 1.330 desses verbetes se referem a trabalhos de Euclides da Cunha, publicados entre os anos de 1884 e 2000 – livros, artigos, poemas, prefácios, correspondências, conferências, relatórios, entrevistas, textos esparsos, traduções, reedições, coletâneas e antologias. Os demais verbetes remetem a textos sobre Euclides da Cunha, publicados no Brasil e no exterior – livros, opúsculos, separatas, folhetos, boletins, textos de cordel, teses, dissertações, artigos em jornais e revistas, suplementos literários, cadernos especiais, almanaques, anuários, publicações comemorativas, filmes e reportagens. A vastidão da fortuna crítica sobre a vida e a obra de Euclides da Cunha torna desafiante o ingresso ou a permanência nos estudos euclidianos. Há de ser considerada também a obsessão do autor pelas aparentemente infidáveis revisões no livro, associada à mobilização de saberes das mais diversas áreas do conhecimento, que parecem requerer do leitor/pesquisador/escritor esforço semelhante ao que o autor investiu para escrevê-lo. Ao mesmo tempo, numa retomada dos estudos de Michel Foucault, pode-se dizer que parece estar relacionado ao autor e obra “algo como um segredo ou uma riqueza” que lhes permitem continuar sendo ditos. Ao se colocar um ponto final numa obra sobre Euclides da Cunha e destiná-la à publicação, por mais que se tenha feito um estudo criterioso e atento, a sensação predominante é a de ter sido feita uma leitura provisória e incompleta. Conforme destaco nas linhas finais do livro “Euclides da Cunha em terras baianas e amazônicas: impressões de um viajante sobre sertões brasileiros e outros espaços”: Euclides da Cunha é signo que desnorteia, pois sempre se referindo a outros signos, num infinito processo de adiamentos e remissões, em que cada signo reiteradamente transfere para outro o rastro da origem perseguida.

Edufba: A seu ver, um escritor e perspicaz erudito do século XIX, como Euclides, que viveu o país em tempos pré-republicanos, pode nos ajudar a interpretar e entender o Brasil hoje?

LD: Muitas mazelas do Brasil do final do século XIX e anos iniciais do século XX, abordadas na obra de Euclides da Cunha, continuam a reverberar na atualidade, como a injustiça social, a desigualdade econômica e a violência do Estado contra as populações pobres e marginalizadas. Nesse sentido, forja-se como metáfora da configuração do país a cena em que Euclides da Cunha narra, em Os sertões, o confronto final entre a força bélica do Estado (apoiada por praticamente toda a imprensa do país) e quatro defensores solitários: “um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados.” De forma semelhante, em razão das denúncias de trabalho escravo e/ou semiescravo, os ensaios amazônicos aparentam retratar notícias das páginas de jornais dos nossos tempos. Além disso, destaca-se no autor o interesse por temáticas que compõem a pauta das agendas de debates contemporâneas, como as questões hídricas e ambientais. Nos ensaios amazônicos “O rio Purus” e “Os caucheros”, por exemplo, o escritor disserta sobre danos causados pelo desmatamento à selva amazônica. No primeiro artigo da série “Plano de uma cruzada”, publicado em O País, em maio de 1904, o autor critica o Estado por não desenvolver um programa intensivo de combate aos efeitos das estiagens, pois suas ações seriam paliativas, sem resultados práticos à população, eficazes apenas para a manutenção de uma massa de manobra para projetos eleitoreiros. Outra característica marcante de Euclides da Cunha, bastante referida nos estudos atuais sobre linguagem (e, sem dúvida, importante para aproximar o autor do leitor contemporâneo), é a consciência da incidência da subjetividade na elaboração discursiva, o que não quer dizer inclinação à ficcionalidade, pois o autor não abandona, em momento algum, o compromisso com a vocação historiográfica. É o que se observa, por exemplo, em Os sertões, quando Euclides destaca: “Reproduzamos, intactas, todas as impressões, verdadeiras ou ilusórias, que tivemos quando, de repente, acompanhando a celeridade de uma marcha militar, demos de frente, numa volta do sertão, com aqueles desconhecidos singulares, que ali estão – abandonados – há três séculos.” Ou, ainda, quando acentua: “O que se segue são vãs conjecturas. […]. O que escrevemos tem o traço defeituoso dessa impressão isolada, desfavorecida, ademais, por um meio contraposto à serenidade do pensamento, tolhido pelas emoções da guerra.” O intelectual consciente do caráter móvel e relativo da verdade, sempre a considerar a presença da subjetividade na representação de realidades (incluindo postulados científicos), ressurge em textos posteriores, como a conferência “Castro Alves e seu tempo”, o prefácio “Antes dos versos” e os artigos “Estrelas indecifráveis”, “A verdade e o erro” e “A ideia do ser”.

Edufba: Que mensagem gostaria de deixar para os seus leitores e leitoras?

LD: Leiam e estudem muito, não apenas porque a educação pode melhorar a vida das pessoas sob o ponto de vista econômico – sobretudo quando se trata de pessoas de origem humilde, categoria em que me incluo –, como também porque a educação pode melhorar as pessoas, tornando-as mais críticas e atentas às questões que afetam a sociedade. Permitam-se afetar pelo conhecimento e sua potência libertadora. Precisamos contribuir para a construção de um país melhor, livre da ignorância, do negacionismo e de toda sorte de preconceito e discriminação. Para tanto, são importantes as boas leituras. Sugiro Euclides da Cunha, por estar inserido numa conjuntura política, social e econômica que desencadeou inúmeros conflitos sociais que reverberam até os tempos contemporâneos. Se, assim como eu no passado, vocês leitores e leitoras sentirem receio de enfrentar a obra do escritor cantagalense, e optarem iniciar por textos críticos sobre sua obra, sugiro meu livro “Euclides da Cunha em terras baianas e amazônicas: impressões de um viajante sobre sertões brasileiros e outros espaços”. O texto analisa as impressões de Euclides da Cunha produzidas em decorrência das duas viagens mais importantes para sua carreira intelectual e profissional: a primeira, aos sertões baianos; a segunda, aos sertões amazônicos. Além dos sertões brasileiros na Amazônia ou em Canudos, Euclides da Cunha percorre outros espaços através da palavra, seja para melhor aludir aos sertões que o encantam, seja para refletir sobre a própria capacidade comunicativa e/ou representativa da linguagem. Em Euclides da Cunha, a objetividade não se inscreve distanciada da subjetividade do eu que se pronuncia. Afinal, não há outro meio de acesso ao passado senão a linguagem, o discurso e a interpretação. Flagrar impressões de viagem e refletir sobre elas a partir dessa perspectiva significa lançar olhares sobre a história de sua gestação discursiva, sobre como são expressas em linguagem e sobre como são percebidas pela crítica e pelo autor. Significa também refletir sobre a permanência do interesse pelo autor na contemporaneidade.