Antonia Torreão Herrera

Espaço do Autor |

Edufba: Conte um pouco sobre sua vida e trajetórias acadêmica e profissional.

Antonia Torreão Herrera: Eu me formei em Letras em 1969, em 1970, entrei para a Universidade Federal da Bahia para lecionar no Colégio de Aplicação (que eu já lecionava em 1969) e para lecionar Teoria da Literatura, sob a regência de Judith Grossmann. Judith criou a matéria Teoria da Literatura em 1966, ano que ingressei na Faculdade, fui aluna da primeira turma dela. Nesse mesmo ano ela criou a Oficina literária livre, depois instalada como disciplina, eu acompanhei desde o inicio a experiência das Oficinas. Posteriomente, 1971, fiz Concurso para professor Assistente e depois para Adjunto. Hoje sou Professora Associado IV.

Fiz Mestrado em Letras, na área de Teoria da Literatura,  sob orientação de Judith Grossmann (defesa 1980) e Doutorado na USP, em Teoria literária e Literatura Comparada, sob orientação de João Alexandre Barbosa (defesa 1996). A pesquisa atual, na qual estou engajada, juntamente com as professoras Evelina Hoisel e Lígia Telles, é uma pesquisa coletiva, denominada O escritor e seus múltiplos, que estuda a literatura feita por docentes e teóricos-críticos que são também escritores criativos.

⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

Edufba: Em que medida suas experiências pessoais guiaram o desenvolvimento desta obra?

AH: Gosto de poesia, leio poesias com frequência e acompanhei as Oficinas ministradas por Judith Grossmann durante todo o período de minha formação e ao longo do tempo que trabalhei com ela. Dei continuidade ao trabalho com as Oficinas. Quando foi criado o IHAC, implantei no BI de Artes e no BI de Humanidades a Área de Escrita Criativa, a qual coordeno.

Gosto de palavras, tenho um fascínio por elas, como se apresentam, as posições na frase, as relações que fazem, as cores que delas emanam e os sons, os infinitos sons que emitem. Faço poesia, mas não as publico. Gosto muito de algumas, tenho para mais de 400 poesias em arquivos. Babel nasceu inicialmente como uma poesia e depois vislumbrei ali um projeto maior. E tive vontade de publicar. Aí aconteceu o jubileu de meus 50 anos de UFBA, homenagem proveniente da generosidade de meus colegas e, com o exímio apoio da EDUFBA, aconteceu o livro.

⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

Edufba: De que forma surgiu a ideia de elaborar um texto poético-mítico para discutir questões da língua portuguesa?

AH: Na verdade não se trata de discutir questões, mas sim de realizar algumas reflexões poéticas sobre a língua, a palavra, esse mistério profundo que nos habita. Nas Oficinas, nós brincamos seriamente com as palavras para senti-las (com todos os sentidos) como um objeto, além do que elas apontam como sentido. A língua portuguesa é muito rica de em suas combinações de sons e tonalidades. Por outro lado, afirmo um mito de que seria ela a língua primeva e a última, associando à ideia poético-filosófica de que chegaremos a uma língua comum, a língua do amor.

O título como esta registrado: bAbEL é uma brincadeira com as consoantes e vogais. Afirmo a força das vogais, e as consoantes sendo apenas pontos de articulação no aparelho fonador, servem de apoio:.o b minúsculo apoia o A maiúsculo que lembra a Torre e o outro b apoia o E que aparece como a escada que sobe , o L, aqui não é consoante, mas uma semi-vogal que soa como U e aponta para o desmoronamento da Torre. Explorando o significante e sua fisicidade, a poesia escava, na selva de signos da língua, a poeticidade.

⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

Edufba: Como suas reflexões sobre língua e linguagem se relacionam com o conhecido “mito de Babel”?

AH: Como a linguagem é usada para comunicação entre os homens, mas há nesse processo um teor enorme de incomunicabilidade, a poesia, fugindo à intenção de comunicar, quer explorar o significante em sua potência lúdica, mágica. Inventa relações não comuns aos desgastes sofridos pela língua em seu uso instrumental e assegura a potência de seu caráter fundador, ou seja aquele que funda, cria realidades, o abre-te sésamo da poesia. A torre de Babel conta o mito do nascimento de idiomas pela fissura na comunicação. Percebi então que, por um lapso de tempo, o significante se libertava das amarras do significado e flutuava potente em seu esplendor de signo vazio e, no entanto, pleno de potencialidade de dizer, de ser. Esse é o campo da poesia, estilhaçar o lugar comum para fazer emergir o resplendor da língua, seu poder criador: Fiat Lux.

⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

Edufba: Qual o papel de reflexões como as dessa obra num momento de instabilidade como o que estamos vivendo?

AH: A língua não e um código que carregamos como um apêndice, ela nos constitui como ser humano, a consciência dessa realidade passa pela consciência de si. Saber o que falo é saber quem eu sou: o que penso, o que sinto, o que percebo da realidade, pois esta não esta dissociada da palavra. Essa pausa provocada pela pandemia não é uma pausa na vida, é um alerta para o movimento da vida que está presente em tudo que nos rodeia. A vida é voraz e nós precisamos estar atentos para perceber que ela não se circunscreve ao nosso viver, ao recorte de nossa pessoa, mas se estende numa dimensão que nos escapa. O vírus é vida que come vida. Nesse tempo, importa olhar com mais atenção a todas às formas de vida com a qual nos relacionamos, perceber a dinâmica do universo, para além do nosso ritmo pessoal. A poesia, que é dita como subjetiva, faz esse movimento de mergulho no eu pessoal para saída radical para um Eu universal. Por isso fala a tantos corações.

⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

Edufba: Deixe uma mensagem para os seus leitores e leitoras.

AH: Leiam poesia. Leiam contos, romances, peças de teatro, crônicas. Estar em casa, sem poder sair, me dá o conforto de estar rodeada de literatura. Pode ser um ponto de fuga, mas é também um ponto de retorno, para compreender melhor a mim, a meu semelhante, à Natureza, à vida em seu mistério que me ultrapassa. Poder ver e sentir a dor do outro é um modo de se conectar com a fonte de vida que existe em cada um de nós. Saber que existe fome no mundo é um modo de saber que não podemos ser omissos diante dessa dor maior. E cada um buscar um modo de poder agir no mundo.

P.S.: Fiz uma live, a convite de um grupo de poetas, sobre Babel. Para conferir, acesse: https://youtu.be/OwmbODBHonQ