Cristina Saldanha

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Edufba: Conte um pouco sobre sua vida e trajetórias acadêmica e profissional.

Cristina Saldanha: Tive uma vida parecida com a de muitas negras no Brasil, recheada de muito sofrimento. A leitura sempre foi alívio, pois suavizava todo sofrimento. Avaliando o meu contexto, acredito que minha vida foi uma superação após a outra, tive que caminhar devagar para acompanhar um presente do céu que é o meu filho especial. Agora, após o mesmo ter concluído o Ensino Médio e estar inserido no mercado de trabalho, posso traçar novas metas para a realização dos meus sonhos. Sempre inquieta com a questão racial, pois sinto o quanto é forte no Brasil. Sempre acolhi os discentes ao longo desses 29 anos de magistério. Com a minha escrita sobre a beleza, inteligência e resiliência do povo negro, penso construir uma base de meninos e meninas conhecedores das verdades que lhes foram ocultadas.

Edufba: Como você percebe a importância da disseminação destas histórias para criar um legado e uma consciência cultural e histórica de um povo?

CS: Essas histórias precisam ser disseminadas alcançando o maior número de crianças a fim de torná-las conhecedoras da sabedoria dos seus antepassados. Retomando a dignidade e identidade de cada uma delas, pois até agora só escutaram falar de escravidão e miséria sendo que o povo negro no Continente Africano e fora dele possuem relatos de sabedoria e resistência.

Edufba: Por que escolher essa história como primeira de uma série de resgates memoriais do povo africano?

CS: A escolha dessa história traz em si muitos aspectos importantes. A mulher ocupando o papel principal para que a fuga acontecesse, a estratégia de comunicação criada para a fuga e o senso de coletividade do grupo.

Edufba: Qual o efeito você pretende alcançar ao resgatar histórias do povo africano através de um livro infantil?

CS: Mostrar que a trajetória do povo Nagô dentro e fora do seu continente não é composta apenas de fatos negativos. Fazer com que as crianças negras não sofram tanto com relatos de histórias tristes sobre o seus antepassados no ambiente escolar. Pesquisar incansavelmente e trazer histórias que estão escondidas, pois as o discurso muitas vezes está sendo feito sem uma base de pesquisa.

Edufba: Levar a cultura do povo negro às nossas crianças é uma forma de combater que elas tornem-se adultos e adultas racistas?

CS: Sim. Pois conhecedoras do seu valor e contribuição para a humanidade fato que observamos na cultura egípcia não terão mais que fortalecer um discurso de ódio.

Edufba: É um objetivo que toda a série seja elaborada a partir de livros infantis ou as futuras histórias terão novos formatos de expressão?

CS: A princípio, livros infantis.

Edufba: Deixe uma mensagem para os seus leitores e leitoras.

CS: Nasci em um contexto sem perspectiva, recalculei a rota e segui outra direção tendo a Educação como aliada e o livro companheiro da minha trajetória, em especial os livros de literatura infantil. A leitura me transportava dali para outras situações bem mais favoráveis. Por isso acredito no poder de uma boa leitura em transformar vidas e contextos desfavoráveis.