Fábio Gatti

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Edufba: Conte um pouco sobre sua vida e trajetórias acadêmica e profissional.

Fábio Gatti: A pesquisa e a arte são o que formam minha vida acadêmica e profissional, não tem separação. Eu morava no interior do Paraná, em Londrina, e os cursos de graduação em arte eram licenciatura. Não me via fazendo essa habilitação. Hoje compreendo que não soube medir o quão benéfico poderia ter sido ser licenciado, em diversos sentidos. Então procurei, entre as universidades existentes em minha cidade natal, um curso que fosse próximo às artes. Comecei arquitetura, mas logo desisti. Posteriormente ingressei em desenho industrial, curso que acabou por influenciar os meus projetos artísticos e ofereceu um direcionamento importante no desenvolvimento do meu olhar e no ingresso na pesquisa acadêmica. Já na graduação, participei de dois projetos de pesquisa, um em ergonomia de produto e outro em gravura de topo. Naquele momento percebi meu interesse pela pesquisa e pelo ensino – fui monitor de uma disciplina de técnicas de ilustração durante dois semestres.

Como eu queria estar mais perto das artes do que do design, realizei duas especializações após me formar: uma em fotografia e outra em história e teorias da arte (com foco no século XX). Na especialização em foto, também fui monitor de uma disciplina ministrada por Fernanda Magalhães, uma grande artista, hoje minha amiga pessoal. Realizei a monografia da especialização em arte sobre o trabalho dela (parte da pesquisa foi publicada em um artigo na Revista Visualidades, da Universidade Federal de Goiás, em 2009).

Desde o fim da graduação e o início da especialização em foto, tinha interesse em um mestrado em artes, indisponível em Londrina. Ao procurar um programa de pós-graduação que correspondesse aos meus interesses de pesquisa, fiquei mais próximo das universidades existentes no eixo Sul e Sudeste, meramente em função da localização geográfica. Contudo, minha irmã se mudou para uma cidade do interior da Bahia, em 2006, fato que direcionou o meu foco para a região. Encontrei, em Salvador, na Escola de Belas Artes (EBA/UFBA), um programa de pós-graduação com o perfil que correspondia aos meus anseios. Prestei a seleção, passei e me mudei para Salvador em 2007. Quando defendi o mestrado, o Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais (PPGAV/UFBA) não tinha o curso de doutorado, fato que me levou à Unicamp, na qual realizei meu doutoramento.

Morei em Campinas por um ano para cumprir os créditos e depois desenvolvi a pesquisa à distância, com idas e vindas frequentes de Salvador para Campinas. Ao final do doutorado, submeti um projeto na EBA-UFBA para um edital de pós-doutorado que estava aberto – uma chamada para o Programa Nacional de Pós-Doutorado (PNPD), da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) – e fui aceito. Desde 2014, sou professor colaborador no PPGAV-EBA-UFBA, no qual já lecionei alguns cursos. Atualmente, além das atividades na pós-graduação, atuo como professor substituto da graduação na Faculdade de Comunicação (Facom/UFBA).

É importante dizer que, durante meu curso de graduação, fui bolsista de pesquisa pelos fundos de apoio da própria universidade, assim como no mestrado (Capes), no doutorado (Fapesp) e no pós-doutorado (PNPD/Capes). Durante o estágio pós-doutoral na EBA, junto com minha supervisora, Rosa Gabriella de Castro Gonçalves, organizei o livro “A operação artística: filosofia, desenho, fotografia e processos de criação” com dinheiro da reserva técnica da bolsa, publicado pela Edufba e distribuído gratuitamente para as bibliotecas das universidades públicas federais e estaduais com cursos de graduação e pós-graduação em artes, no Brasil.

Edufba: As vivências da sala de aula interferem de que forma em seu trabalho artístico?

FG: Percebo essa interferência de duas maneiras. A primeira diz respeito aos desafios que me proponho ao enfrentar temas que fazem parte de minha pesquisa, sobre os quais compartilho, discuto e aprofundo em aulas na pós-graduação. A segunda está relacionada a um evento recente que foi minha contratação como professor substituto na Facom, na qual leciono quatro componentes curriculares distintos, o que me exigiu atitudes diferentes porque trata-se de cursos de graduação. Alguns investimentos mais recentes em discussões que começaram na pós-graduação e adentraram na graduação levaram, por exemplo, à construção de um novo projeto fotográfico, ainda embrionário, em desenvolvimento no meu perfil particular do Instagram.

Edufba: Por que a perspectiva de um “futuro fora do tempo” foi escolhida como centro da discussão do livro?

FG: Porque eu estava oferecendo um curso na pós-graduação chamado “Linguagem fotográfica: produção e reflexão”. É um curso prático-teórico, ou seja, envolve leituras e discussões de textos e de trabalhos de artistas e a produção visual de cada participante. Pensar a fotografia é discutir relações temporais e, como o modelo do nosso cronotopo se modificou, como o futuro não é mais um tempo longínquo prenhe de possibilidades, sugeri reflexionar sobre um futuro fora do tempo. A questão que norteou o curso foi “como pensar o futuro fora do tempo?” e, conforme escrevi na introdução do livro, essa pergunta, quando formulada pela primeira vez, soou absurda. Parecia impossível falar de uma relação temporal sem as nuances por nós nominadas como passado, presente e futuro. Entretanto, esse foi o aspecto essencial para manter a indagação latente. Além disso, quantos caminhos poderiam se abrir para discorrer sobre a fotografia – e por que não sobre o fotográfico – em relação ao futuro, agora sem tempo?

Há a possibilidade de trabalhar com a ideia de futuro distanciada do tempo? A fotografia atua nesse futuro? Foram levantadas inúmeras questões, para quais não obtivemos respostas específicas. Estudamos textos de diversas áreas do pensamento, desde a física, passando pela literatura, cinema, poesia, artes e filosofia. Para tratar do tempo na filosofia, convidamos a professora Dra. Juliana Ortegosa Aggio, especialista em filosofia antiga e professora da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FFCH/UFBA), para uma conversa sobre as diferentes perspectivas no entendimento e tratamento sobre o tema.

Como resultado do curso, produzimos o livro bilíngue “Futuro fora do tempo: poética, fotografia e incertezas / Future outside time: poetics, photography and uncertainties” e uma exposição virtual realizada no Teatro Vila Velha que ocupou todo o espaço externo ao palco. Foi uma exposição interativa, na qual espalhamos mais de 300 códigos QR que levavam ao link para download do livro e aos trabalhos produzidos pelas(os) participantes do curso.

 

Edufba: Qual o seu olhar sobre a fotografia em um tempo em que o registro de momentos e imagens se tornou banal?

FG: Acho engraçado quando escuto ou leio que a fotografia se tornou banal hoje em dia. Ela foi pensada para ser multiplicada, serializada, produzida ad infinitum desde o seu descobrimento. Isso em si já é banalizá-la. Não há problema em ser banal, na minha opinião. Quando a Kodak ficou famosa com seu slogan “Aperte o botão e nós fazemos o resto”, a fotografia se apresentou como um meio possível de produção e disseminação de imagens. Qualquer pessoa podia fotografar, qualquer pessoa podia ser fotógrafa. Não é tão diferente de hoje, com o uso dos smartphones. A meu ver, um ponto que pode se diferenciar nessa distância histórica – da invenção da Kodak até os dias de hoje – é o rápido desenvolvimento tecnológico voltado à criação de plataformas de comunicação em redes virtuais que tornam o compartilhamento dessas imagens imediato. Isso para dizer que não acredito que as imagens se tornaram banais, ao menos não a fotografia. Ela sempre o foi. O que me interessa na fotografia é perceber o modo pelo qual as(os) artistas a usam, envolvendo todo o pensamento sobre ela, suas práticas, técnicas e materiais para produzirem trabalhos que discutem e ampliam seu entendimento. Não tenho inclinação a olhar para essas imagens em sentido sociológico ou no que tange às disciplinas psi; meu foco é a arte e, sendo assim, meu olhar sobre o banal é mais aberto.

 

Edufba: Como você percebe, após a conclusão da disciplina, a reflexão entre a constante do tempo e o fotográfico?

FG: A disciplina se concluiu, mas as reverberações não cessaram de lá para cá. Dos nossos estudos – digo nossos porque a disciplina foi construída com todas(os) as(os) participantes e não apenas por mim – e das produções realizadas, o interessante foi perceber o modo como estávamos trabalhando com um terreno de incertezas. Aceitamo-nas e continuamos a enfrentar o tempo e o futuro, a possibilidade de um futuro fora do tempo, a inabalável flecha do tempo e os diversos modos de problematizar o tempo, seja o absoluto (Aion), o cronológico (Cronos) ou o oportuno (Kairós).

Não percebo o tempo como algo constante, não quando discuto criação artística. Ele pode vir a ser uma constante a depender do trabalho realizado. Nos trabalhos desenvolvidos e presentes no livro, isso é perceptível. Esse é o ponto mais interessante de poder olhar novamente para esse trabalho: verificar que o modo como cada pessoa que estava no grupo enfrentou a questão-chave foi absolutamente diverso. Para mim, a reflexão mais forte que obtivemos da disciplina foram os trabalhos artísticos. Eles são melhores para dizer sobre isso do que as minhas palavras pelo simples fato de estarem abertos, e as minhas palavras, aqui, serem mais direcionadas, impedindo nuances interpretativas divergentes.

Outro ponto interessante foi usar uma formatividade em metodologia. A formatividade é um conceito do filósofo Luigi Pareyson, quem estudei durante o pós-doutorado, para pensar o processo criativo em artes. E, no curso, estava preocupado em discutir uma metodologia mais aberta, o que funcionou muito bem. Foi um grupo bastante especial, que aceitou o desafio de enfrentar a produção e a reflexão acadêmico-artística fotograficamente sobre um futuro fora do tempo e, também, de construirmos juntos o curso todo.

 

Edufba: Em um momento de incerteza e desvalorização tanto da educação como da arte, qual é o papel desse tipo de reflexão sobre vida, arte e tempo?

FG: A arte é e sempre será o primeiro lugar afetado por qualquer discurso homogeneizante e não democrático, visto sua capacidade de questionar e de confrontar o status quo. Ensinar, discutir e incentivar a produção de arte em um país como Brasil é uma atitude indiscutivelmente política.

O que fico em dúvida é se estamos em um momento de desvalorização. Na minha opinião, a educação nunca foi devidamente valorizada, vide a qualidade do ensino fundamental e médio e o tratamento dado pelo Estado às(aos) discentes e docentes. E, além disso, o modelo de ensino universitário no Brasil está baseado em uma relação de hierarquias que pressupõe a existência de alguém que sabe mais e ensina e alguém que sabe menos e aprende. O(a) professor(a), que deveria ser um(a) agente de estímulo ao pensamento e à crítica, muitas vezes se vê no papel de explicador(a) de textos e não de interlocutor(a) com o(a) autor(a) e a reflexão acadêmica, principalmente no que se refere à graduação.

A arte é, sem dúvida, a meu ver, o lugar e o objeto com e a partir do qual é possível estabelecer outro modo de contato com o real. Essa é sua mágica. Ela descortina a realidade na sua ficção; faz pensar. Porém, para isso, você precisa estar disposta(o). Hoje em dia, as pessoas procuram tudo mastigado.

 

Edufba: Deixe uma mensagem para os seus leitores e leitoras.

FG: Pensando o “Futuro fora do tempo: poética, fotografia e incertezas”, meu convite fica para que cada pessoa passeie pelo livro, eletrônico e gratuito (https://repositorio.ufba.br/ri/handle/ri/26293), conforme lhe for mais convidativo. Não esperem respostas exatas, porque a arte não responde, ela expõe. E o faz para pensarmos, não para fechar-se em uma fórmula. Acredito que seja um livro sobre o qual é preciso dedicar-se mais de uma vez, vagarosamente, visitando os diferentes trabalhos e experimentando os textos.