Márcio Correia Campos

Espaço do Autor |

Edufba: Conte um pouco sobre sua vida e trajetórias acadêmica e profissional.

Márcio Correia: Formei-me em Arquitetura e Urbanismo pela UFBA, em 1993, e o curso àquela época oferecia um bom equilíbrio para a formação profissional por meio de professores que lideravam importantes escritórios de arquitetura na cidade, como Itamar Batista e Neilton Dórea, e de pesquisadores com destaque nacional. Fui bolsista de iniciação científica durante dois anos na pesquisa coordenada pelos professores Ana Fernandes e Marco Aurélio Filgueiras Gomes, experiência que foi decisiva para a minha trajetória acadêmica.

Imediatamente após a graduação na UFBA, iniciei os estudos na Universidade Técnica de Viena, onde obtive o título de mestre em arquitetura, em 1999. Essa experiência foi riquíssima e fundamental: entrar em contato com um ambiente acadêmico muito distinto do que conhecia no Brasil, em todos os seus aspectos, permitiu-me uma ampliação do horizonte profissional. Meu trabalho como pesquisador e crítico de arquitetura dedicou-se, inicialmente, à arquitetura moderna – o tema da minha dissertação de mestrado foi a imagem da arquitetura moderna brasileira nas revistas de arquitetura de língua alemã nas décadas de 1940 e 1950 –, mas, com o tempo, fui cada vez mais incorporando a arquitetura contemporânea como área de interesse principal.

Edufba: De onde surgiu a ideia para a pesquisa que deu origem a “Minha vaga, minha morada”?

MC: Em 2015 assumi, pela primeira vez, a coordenação de uma turma do Atelier de Projeto 3, que, na Faculdade de Arquitetura, é tradicionalmente dedicada ao tema da habitação. Na preparação do curso, percebi uma grande lacuna na bibliografia sobre o assunto, que tratasse da produção contemporânea no Brasil. De uma maneira geral, há pouca literatura sobre a arquitetura a partir dos seus programas, o que coincide com a fraca tradição dos estudos tipológicos no Brasil. Ao mesmo tempo, eu já tinha escrito alguns artigos sobre os problemas contemporâneos nas cidades causados pelo incremento desenfreado do uso do automóvel particular, mas sempre da perspectiva do urbanismo. Acontece que, diferente das cidades europeias ou norte-americanas, onde esse é um problema fortemente ancorado no espaço público, no Brasil a arquitetura de todos os edifícios foi fortemente adaptada para abrigar o automóvel. Assim, naquele mesmo ano elaborei o projeto de pesquisa que tem como foco conhecer a arquitetura multirresidencial construída por arquitetos em Salvador, com especial atenção para o seu processo de verticalização, e entender as variações dessa arquitetura elaboradas para abrigar o automóvel. É, assim, uma investigação geral sobre a cultura do morar na cidade.

Edufba: “Minha vaga, minha morada” descreve a relação direta entre as construções e suas culturas locais de habitação. Você percebe a arquitetura como ferramenta de construção dessas culturas ou vê a cultura como molde do projeto arquitetônico?

MC: Esta pergunta é formidável: as pessoas não estão habituadas à noção de que a configuração dos espaços onde elas vivem é um componente de sua cultura, em boa parte porque essa é, em si, um bem imaterial, melhor apreendido como ambiência. Então há, por um lado, obviamente, as construções, a cultura do construir, os bens materiais representados pelos edifícios de importância artística ou histórica, algo bem concreto; por outro, em termos da cultura do morar, a arquitetura desempenha um papel importante tanto por meio da definição das relações espaciais entre os cômodos e, a partir daí, de uma série de relações sociais, como por meio do conjunto de escolhas materiais e tecnológicas em conformar uma cultura da habitação que diz respeito à vida íntima nos espaços interiores e à vida em comunidade no espaço público. Veja, por exemplo, a diferença entre um bairro com edifícios monofuncionais, destinados exclusivamente à habitação, com uma atividade na rua tendencialmente próxima a zero e um bairro com edifícios de uso misto, com o térreo ocupado por comércio e serviço, compondo as chamadas fachadas ativas, com vida animada e diversificada nas calçadas, o que demonstra como a cultura da convivência em sociedade, os modos como usamos de maneira autônoma o espaço da cidade, passa pela arquitetura.

Ainda que isso pareça óbvio, temos no passado recente um paradoxo interessante: enquanto as ciências sociais de uma maneira geral reconheceram, a partir de 1989, a importância do espaço como categoria, nós estamos imersos em uma tradição acadêmica na área de arquitetura e urbanismo que frequentemente caminha na contramão desse movimento. Entretanto, podemos perceber como a arquitetura forma e é formada pela cultura: bairros de baixa densidade construtiva, com edifícios com grandes áreas de estacionamento, muito distantes uns dos outros, formam cidadãos que são dependentes do automóvel e são incapazes de imaginar a vida sem o uso cotidiano desse meio de transporte individual. Isolados em seus automóveis, as chances de interação social positiva fora da esfera doméstica são drasticamente reduzidas. Estabelece-se, portanto, com determinante participação da arquitetura, uma cultura de viver nas cidades marcada progressivamente por isolamento, do qual o condomínio fechado é apenas a sua expressão mais violenta.

Edufba: Você tenta passar esse olhar sensível sobre as interseções entre arquitetura, sociedade, cultura e arte para seus alunos e alunas?

MC: Esta é, talvez, a principal tarefa do professor de projeto de arquitetura. Existe uma compreensão vulgar que imagina a disciplina a partir de uma perspectiva essencialmente técnica: dessa maneira, o professor teria como tarefa básica demonstrar para o estudante aspectos importantes das decisões de projeto que tenham relação direta com a construção, sendo a sua experiência pessoal determinante para a realização pedagógica do simulacro da vida profissional. Entretanto, creio que o professor de projeto tenha sua tarefa principal em desenvolver a consciência da responsabilidade que o arquiteto tem de articular com o seu trabalho a cultura, as relações sociais, o bem-estar e o otimismo de imaginar um mundo melhor através da configuração de espaços antes inimagináveis. Muito mais que cenário da vida, a arquitetura tem a capacidade de transmitir uma fé de transformação positiva da vida ao envolvê-la espacialmente com o novo. É o que diferencia arquitetura de literatura: enquanto a última permanece no campo da ficção e do prazer estético, a arquitetura oferece como realidade uma possibilidade de mundo diferente, transformado. Por isso, o arquiteto precisa ser muito sensível “ao que está latente no ar”.

Edufba: Como pesquisador, professor e arquiteto, de que forma você compreende o papel desse último profissional diante das constantes mudanças na dinâmica das cidades?

MC: O arquiteto tem condições, pela sua formação criativa e plural, de ser um importante articulador de ideias de diferentes campos do conhecimento. Essa capacidade levou à tradição no país de uma certa responsabilidade exagerada na condução política e administrativa das cidades. Pessoalmente, o grau de complexidade que as duas esferas, ou escalas, de configuração espacial do ambiente habitado – o edifício e a cidade – desenvolveram, reservaria ao arquiteto um lugar bem específico diante das dinâmicas urbanas, cada vez mais descontroladas e dependentes de redes para as quais o espaço físico, da experiência concreta do cotidiano, importa cada vez menos.Se a escala do urbano parece cada vez mais se fragmentar nos processos cada vez mais autônomos em relação à administração local, a escala da arquitetura assume um papel mais decisivo na manutenção da habitabilidade dos aglomerados urbanos.

Tomemos como exemplo as fazendas verticais: elas são uma resposta arquitetônica à falência da eficiência dos sistemas de transportes em megacidades, à crise de recursos hídricos e de terras férteis. Assim, por meio de uma ideia arquitetônica, a de produzir alimentos em edifícios altos, nos centros urbanos, estabeleceu-se uma resposta a um problema de escala global. E de uma perspectiva completamente diferente, é a arquitetura o registro mais duradouro da vida nas cidades, ela será sempre a referência, aquilo que, atravessando séculos, é o artefato melhor atualizado a oferecer uma segurança de valores e modos de vida diante de dinâmicas marcadas por fortes mudanças. Em sua capacidade de constante atualização, a arquitetura será a melhor expressão da resiliência de uma comunidade.

Edufba: Deixe uma mensagem para os seus leitores e leitoras.

MC: O livro “Minha vaga, minha morada” é o fruto de uma pesquisa detalhada, que tratou dados referentes a mais de mil edifícios em Salvador. Seu formato, entretanto, aproxima-se ao máximo de um guia de arquitetura, oferecendo ao leitor que não é arquiteto uma apreciação crítica sobre a grande produção de arquitetura multirresidencial da cidade. Não se trata de um livro dedicado a obras de destacado valor, assinada por arquitetos famosos em todo o país; ele pretende muito mais observar com cuidado o conjunto do trabalho dos arquitetos atuantes na cidade nas últimas décadas e sua contribuição para a cultura do morar. É, assim, um convite a olhar com atenção para os edifícios que usamos no nosso dia-a-dia, a aprender a valorizar o que há do trabalho do arquiteto em cada um dos edifícios em que vivemos. Por outro lado, é, também, uma chamada para a conscientização da intensidade com que o automóvel individual mudou o morar, muitas vezes tomando o lugar do convívio social para o seu abrigo. No limiar de uma época em que, no mundo, a opção pelo automóvel como meio de locomoção urbano prioritário é cada vez mais questionada, precisamos pensar o que fazer para mitigar seus efeitos nocivos tanto para a cidade, como para seus edifícios. E conhecer os edifícios é um primeiro passo importante para essa ação transformadora.