Ana Célia da Silva

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Edufba: Fale sobre a sua vida e trajetórias acadêmica e profissional.

AC: Fiz o primário na escola estadual Sete de Setembro, que ficava na Vasco da Gama, no Dique do Tororó. Fiz o ginásio e o curso pedagógico no Iceia. Cursei pedagogia, licenciatura e bacharelado na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFBA, cursos concluídos em 1969. Fiz mestrado e doutorado em Educação na UFBA, concluídos em 1988 e 2001, respectivamente. Trabalhei na Secretaria de Educação de 1963 a 1965 como datilógrafa. Aprovada em concurso federal, ingressei, em 1965, no Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Bancários. Aprovada em concurso para o ensino médio, ingressei, em 1970, no Centro Integrado Anísio Teixeira como professora de ensino médio e depois como orientadora educacional. Aposentei-me em 1990 e, em 1994, fui aprovada em concurso público para professora assistente no campus I da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), onde trabalhei na graduação e na pós-graduação, aposentando-me em 2010.

Edufba: Com base nas obras analisadas, qual o estereótipo mais recorrente que ainda se mostra amplamente disseminado na sociedade?

AC: Os estereótipos em minoria na sociedade, associados a animais (vide torcedores nos campos de futebol), ao mau e à incapacidade.

Edufba: Qual a importância das discussões críticas feitas em sala de aula para o processo de desconstrução desses estigmas sociais?

AC: As discussões objetivam comparar a representação social com o real concreto. Atrelado a isso, identificar os determinantes da situação socioeconômica em que vive a população majoritária na sociedade (como os trabalhadores, negros, mulheres etc) e, baseado nessas reflexões, apresentar propostas de desconstrução dos estigmas que determinam em grande parte a autorrejeição, a rejeição aos seus assemelhados, bem como soluções de continuidade no processo de unidade étnico-racial.

Edufba: O papel do(a) professor(a) é fundamental na quebra dos preconceitos. A partir do estudo da obra, quais outras formas de desconstrução já se mostraram aliadas às discussões dos(as) docentes?

AC: O teatro negro, como o Bando de Teatro Olodum, o novo cinema baiano e nacional, as obras que surgem tratando dessa temática, como “Um defeito de cor”, os livros sobre escravidão e insurgência – como os de João José Reis -, as frentes negras surgidas nessa década, como a frente Vidas Negras Importam, Rolezinho das Caras Pretas, Frente Nacional Makota Valdina, entre outras.

Edufba: Sendo uma mulher negra que passou por diversas fases acadêmicas, como você se vê dentro desse universo?

AC: Como uma mulher negra, sou vista, como todos os negros e negras, como uma pessoa suspeita nas lojas, nos mercados, nos bancos. Na vida acadêmica, ainda em grande parte, sou vista apenas como uma militante que escreve sobre militância. Nos círculos dos intelectuais que pensam a diferença e como ela ainda é tratada, sou vista como uma intelectual que avançou nos estudos iniciados por Frantz Fanon, Steve Biko e outros, que têm como objeto de estudo o recalque e suas consequências para a autoestima e identidade negra.

Edufba: Deixe uma mensagem para os seus leitores e leitoras.

AC: Para que a educação seja um elemento de reflexão e independência de pensamento, é necessário que ela contemple todas as histórias, todas as culturas, todas as diferenças, em um recorte curricular que traga para a sala de aula o que for mais significativo de todas elas.