João Augusto de Lima Rocha

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Edufba: Fale sobre a sua formação acadêmica, profissional e pessoal.

João Augusto: Nascido em 1951, em Gentio do Ouro/BA, formei-me em engenharia civil, pela UFBA, em 1972. Concluí o mestrado em engenharia civil, na Coppe/UFRJ, em 1976. Iniciei na carreira de professor na Universidade Gama Filho, no Rio de Janeiro, em 1975. Em 1978, fui para a Universidade Federal da Paraíba, em Campina Grande, onde ensinei até o final de 1980. No final daquele ano, fui chamado para a UFBA, na qual havia passado em concurso para professor assistente, no ano de 1977. Como professor em tempo parcial, na UFBA, atuei durante os primeiros dois anos, na área de consultoria em projeto de estruturas, na engenharia. Após 37 anos de atuação como docente na UFBA, aposentei-me como professor titular da Escola Politécnica.

Desde o início da carreira docente, sempre participei do movimento docente, tendo sido   presidente do Sindicato dos Professores das Instituições Federais de Ensino Superior da Bahia (Apub), de 1985 a 1987.

Organizei a Fundação Anísio Teixeira, na Bahia, que iniciou suas atividades em 1989. Fui diretor executivo da Fundação de 1989 a 1992 e, logo a seguir, pró-reitor de graduação da UFBA. Fiz o doutorado em Engenharia de Estruturas, na USP/São Carlos, concluído em 1999. De lá até o momento, sou membro do Conselho Curador da Fundação Anísio Teixeira.

Edufba: Qual a sua relação com Anísio Teixeira?

João Augusto: O primeiro contato com a obra de Anísio Teixeira deu-se em 1970. Eu era membro do Diretório de Engenharia Civll da UFBA (diretor de Cultura), quando encontrei, na biblioteca do Diretório, o livro “Vida e educação”, de John Dewey, o filósofo e educador norte-americano que influenciou Anísio por toda a vida. A tradução foi de Anísio, e o prefácio, de de sua autoria, tomava metade do livro! Fiquei entusiasmado com a leitura, tanto que reli o livro várias vezes. Minha família morou em Guanambi/BA, de 1960 a 1974, e lá eu ouvia falar bastante do mais ilustre filho da vizinha cidade de Caetité, onde nasceu o educador no ano de 1900.

Em 1987, fui convidado pelo Instituto Anísio Teixeira (IAT), do governo da Bahia, para participar de um projeto de recuperação da memória dos principais educadores do estado, e a mim coube a parte referente a Anísio Teixeira. Na pesquisa, contei com a importante participação de Laura Mônica Amaral Baleeiro, que descobriu um conjunto significativo de documentos na casa natal do educador, em Caetité. O IAT publicou uma edição fac-símile das correspondências inéditas de Anísio Teixeira então encontradas, que alcançou grande repercussão. Foi isso que deu condições a que iniciássemos o movimento que culminou com a criação da Fundação Anísio Teixeira, instalada em 21 de setembro de 1989, sob minha coordenação. Daí em diante passei a dedicar-me intensamente à obra de Anísio.

Edufba: O que caracterizava a atuação de Anísio Teixeira enquanto pedagogo? Quais foram as suas principais realizações?

João Augusto: Anísio é um educador singular, considerado por Florestan Fernandes como o “primeiro e único filósofo da educação nascido no Brasil”. Sua contribuição é imensa, de tal modo que todas as inovações relevantes na política educacional, na administração escolar e na pedagogia, em nosso país, implantadas de 1924 a 1971, foram lideradas por ele. Da educação infantil até a pós-graduação, tudo que é considerado inovação educacional, entre nós, advém das universidades e das escolas que ele concebeu e implantou. É de seu esforço que se consolida, no Brasil, a luta pela escola pública, universal, gratuita e laica, baseada no princípio, difundido amplamente por ele, segundo o qual é por meio da escola pública que a democracia implanta-se e consolida-se na sociedade.

Na pedagogia propriamente dita, Anísio é a principal liderança do movimento denominado Escola Nova, difundiu amplamente e consolidou, para sempre, a concepção deweiana – princípio básico da Escola Nova – pelo qual a educação deve ser dada por meio da experiência, com a administração de conteúdos e a formação para a cidadania, presentes, simultaneamente, na prática pedagógica. Essa é, em essência, a ideia que orienta para a generalização da escola do dia inteiro – escolas-classe junto com escola-parque -, que ele começou no Rio de Janeiro, de 1931 a 1935 e, em 1950, implantou no Centro Educacional Carneiro Ribeiro, em Salvador, onde fica a mundialmente famosa Escola Parque.

Edufba: Como o regime militar instaurado em 1964 comportou-se em relação a Anísio Teixeira?

João Augusto: Esse tema é largamente desenvolvido no livro “Breve história da vida e morte de Anísio Teixeira”. De fato, o que está no centro de tudo é a intolerância do regime militar a manifestações de liberdade e de apreço à democracia, relacionada com a ação discricionária que levou ao golpe de 1964, responsável pela interrupção do governo progressista e constitucionalmente eleito do Presidente João Goulart, dentro do qual Anísio exercia forte liderança na área educacional. Ao educador, cabia a execução do I Plano Nacional de Educação, concebido por ele e sua equipe para ser executado de 1963 a 1970.

Com o golpe, em 1964, Anísio foi retirado à força do cargo de reitor da Universidade de Brasília, que ocupava simultaneamente com o de secretário geral da Capes e o de diretor do Inep. Além disso, foi aposentado compulsoriamente do serviço público e submetido a humilhantes inquéritos policiais militares, em todos os quais provou sua inocência.

Edufba: O que te levou a crer que a morte do educador baiano foi, na verdade, um assassinato, e não um acidente, como divulgado na época do ocorrido?

João Augusto: De fato, na pesquisa rigorosa que realizei por mais de trinta anos, sobre o tema da morte de Anísio Teixeira, não parti, inicialmente, da hipótese de que ele fora assassinado pelo regime militar. Meu interesse era esclarecer pontos obscuros da explicação aparecida na imprensa submissa da época, que afirmava taxativamente ter sido sua morte devido a uma queda – acidental ou criminosa -  no fosso de um elevador, no Rio de Janeiro, em 11 de março de 1971.

Percebi que a explicação era muito simplista, sem qualquer suporte em provas concretas e, com o tempo, foi-se evidenciando que a versão foi construída com a finalidade de esconder a verdade, no interesse da ditadura. A questão ainda não está completamente explicada, mas, na medida em que provo definitivamente, no livro, que ele não caiu no fosso do elevador, tudo leva a crer que foi assassinado, com grande probabilidade de que isso tenha ocorrido após tortura, em instalação militar no Rio de Janeiro, entre 11 e 12 de março de 1971.

O curioso é que a hipótese do assassinato, agora fortemente estabelecida, está embasada em informações dadas, independentemente, por dois intelectuais conservadores de elevada expressão, que as obtiveram em meios militares muito acreditados, porquanto ligados diretamente à coordenação da repressão política. Segundo ambos, Luiz Viana Filho e Abgar Renault, Anísio foi detido a fim de prestar depoimento na Aeronáutica, no Rio, antes de morrer, o que inviabiliza completamente a possibilidade de ele ter sofrido a queda no elevador que, se tivesse ocorrido, seria no máximo duas horas depois de Anísio ter desaparecido.

Ora, se o desaparecimento ocorreu em local bastante distante de qualquer instalação da Aeronáutica, naquela cidade, como teria ocorrido o depoimento, antes da queda no fosso do elevador? Daí a hipótese mais provável é que ele tenha morrido sob tortura e, depois, o corpo foi submetido a lesões compatíveis com as de uma queda no fosso do elevador no fundo do qual seu corpo foi encontrado, mais de dois dias depois de desaparecer.

Edufba: Como foi o trabalho de coleta de evidências que deram sustentação à sua hipótese?

João Augusto: Primeiro, ainda sem preocupação com a formulação de hipóteses, recolhi informações de familiares que acompanharam as buscas, após o desaparecimento do educador, em 11 de março de 1971. Depois, examinei o noticiário dos jornais cariocas, em torno da data do desaparecimento. Tive informações muito importantes trazidas pela longa matéria divulgada no jornal Última Hora (RJ), edição de 15 de março daquele ano, que avaliou as possibilidades de acidente ou de crime.

Atento a qualquer novidade que aparecesse, somente bem mais tarde, no final de 1988, foi que obtive a informação crucial, dada pelo então senador Luiz Viana Filho, que me falou sobre telefonemas trocados entre ele e militares de alta patente, entre 11 e 13 de março de 1971, na busca de esclarecimento para o desaparecimento do educador. Enfim, consolidou-se a possibilidade de que Anísio tenha sido sequestrado no trajeto que ele iniciou na Fundação Getúlio Vargas e que terminaria (mas não terminou) no apartamento de Aurélio Buarque de Holanda, na rua Praia de Botafogo (RJ), no final da manhã de 11 de março de 1971. O sequestro foi para levá-lo, sob coerção ilegal, a dar depoimento em instalação da Aeronáutica, no Rio, após o momento em que, contraditoriamente, já teria caído no fosso do elevador onde o corpo foi encontrado, dois dias depois.

Em seguida, entrevistei o médico e crítico literário baiano Afrânio Coutinho, também amigo próximo de Anísio, que apresentou mais evidências sobre a possibilidade de ser falsa a tese da queda no elevador. Daí em diante, delineou-se, claramente, a hipótese do assassinato, corroborada pela informação da família do educador, de que Abgar Renault, ex-ministro da educação e amigo de Anísio, passou uma informação a Artur da Távola, então genro do educador, com o mesmo teor da apresentada a mim por Luiz Viana Filho. Abgar, no entanto, deu o nome do Chefe do I Exército, Syzeno Sarmento, como quem lhe informou que Anísio estava detido na Aeronáutica, e que “não demoraria em sair”.

Fiquei mais de 20 anos de posse dessas informações, para revelá-las, publicamente, em agosto de 2012. Após a divulgação, que teve grande repercussão na imprensa, em novembro daquele ano, a Comissão Nacional da Verdade (CNV) aceitou investigar o assunto. A CNV não concluiu a investigação, mas, em 2014, entregou à família do educador fotografias e a cópia do auto do exame cadavérico de Anísio, documentos aos quais tive acesso e que me permitiram provar que a queda no fosso do elevador não foi mais que uma farsa a serviço de quem tinha interesse em esconder a verdade sobre a morte de Anísio Teixeira.

Edufba: Qual a importância do pensamento “anisiano” para a educação, nos dias de hoje?

João Augusto: A importância é muito grande, porque Anísio é considerado o líder inconteste da renovação educacional brasileira, em todas as áreas, de 1924 a 1971. E o que ele fez vale até os dias atuais, em que enfrentamos o retrocesso para posições anteriores à LDB de 1961, cujos avanços deveram-se à atuação de um grupo de educadores, com Anísio à frente.  Foi ele quem formulou, no Brasil, os princípios da luta pela escola pública universal e gratuita. A introdução da pesquisa como atividade regular nas universidades começa na Universidade do Distrito Federal, criada por ele em 1935, e isso se reforça com a criação da Capes, em 1951, que contou com a parceria de Rômulo Almeida.

Segundo Anísio, é a escola pública que responde pela consolidação da democracia em uma nação, sendo por isso que setor privado não tem alcance nem perfil para dar conta desse processo. Por conta de tal concepção, travou uma longa luta contra posições da cúpula da igreja católica, que se opunha à escola pública universal e gratuita, além de defender o financiamento da escola particular pelo Estado. Desse modo, pode-se atribuir às lutas lideradas por Anísio, particularmente de 1934 ao final da década de 1950, a conquista da separação real entre Estado e Igreja, no Brasil, instituída formalmente nos albores da República, porém só instituída, de fato, na vida brasileira, após a longa luta travada sob inspiração e com a liderança de Anísio Teixeira.

Edufba: Deixe uma mensagem para os leitores e leitoras do livro Breve História da Vida e Morte de Anísio Teixeira.

João Augusto: Acredito ter sido muito apropriada a iniciativa da Edufba de lançar o livro, acessível a todos os públicos, que contém, além de um apanhado sobre o conjunto das essenciais contribuições de Anísio para a educação pública e para a cultura no Brasil, também a prova definitiva da farsa da queda no elevador que – agora se sabe – não foi a verdadeira causa da morte trágica do grande educador baiano. A obra é de minha autoria, mas inclui um longo e bastante elucidativo prefácio da autoria de Haroldo Lima. Chega a obra em boa hora, exatamente quando o Brasil precisa de reflexões conceituais consistentes para dar bom suporte à contínua vigilância e às ações potentes que se fazem necessárias, ante um governo de extrema direita que prega o retorno à barbárie, na onda de crescimento internacional do ódio ao conhecimento e a todos aqueles que lutam pela paz e por um mundo melhor para todos. Felizmente, a procura do livro está sendo muito grande, de modo a merecer uma nova edição, que já está a caminho.