Renata Tomaz

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Edufba: Fale um pouco sobre a sua trajetória profissional e acadêmica.

Renata Tomaz: Sou jornalista pela Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), na qual concluí o mestrado, em 2011, e o doutorado, em 2017. Minhas  pesquisas são voltadas para investigar a relação entre infância e mídia, seja para identificar os modos pelos quais as mídias retratam as crianças ou para compreender os usos que estas fazem dos aparatos midiáticos.

Edufba: O que despertou seu interesse acadêmico para estudar youtubers mirins?

RT: Em primeiro lugar, porque se trata de um fenômeno midiático em que as crianças usuárias da plataforma podem ser pensadas como sujeitos comunicacionais. Em segundo lugar, porque me permite identificar a emergência de novas experiências dos primeiro anos de vida, ou seja, novas infâncias.

Edufba: Como ocorreu a transformação de crianças de telespectadoras passivas para produtoras de conteúdo?

RT: Os estudos da infância e os estudos culturais foram fundamentais nas últimas décadas para compreendermos que o consumo midiático dos indivíduos, incluindo as crianças, não é um consumo passivo. Ao demandar competências distintas daquelas necessárias para a leitura de um livro, por exemplo, acreditou-se, por algum tempo, que a TV produzia audiências passivas. Mas as etnografias de audiência e os estudos de recepção mostraram que as crianças, em especial, produzem sentidos ao consumirem conteúdos audiovisuais. Ainda que não seja o tempo todo, são capazes de negociar visões de mundo e, assim, fazerem leituras ativas do que assistem.

Nesse sentido, sua condição de produtoras de conteúdo é mais uma continuidade do que uma ruptura, que está ligada especialmente a dois fatores. Em primeiro lugar, está ligada à compreensão de que as crianças são sujeitos, dotados de voz. E, em segundo lugar, à oferta de tecnologias, que permitem a elas produzir imagens, textos, vídeos e material sonoro; e de plataformas que possibilitam a disseminação do que produzem. Não se trata, é importante dizer, de determinismo tecnológico, mas de condições de possibilidade.

Edufba: Como o olhar da sociedade para as crianças modificou-se ao longo da história?

RT: Bem, essa é uma trajetória longa que levou alguns séculos, de modo que não é possível explicá-la em uma resposta. Mas eu diria que há dois momentos muito cruciais para termos chegado ao modo como vemos as crianças nas sociedades contemporâneas. O primeiro deles nos remete ao século XVIII, quando podemos identificar a emergência de uma infância moderna. É nesse momento que as sociedades, principalmente ocidentais – não de forma homogênea – percebem a criança como objeto de cuidados. Os mais novos saem da esfera pública do trabalho e da produção, em que tinham um papel fundamental para a economia familiar, e são inseridos no espaço doméstico do cuidado, no qual tornam-se alvo de proteção e afeto para que atuem, no futuro, no projeto civilizador moderno. As crianças tornam-se os cidadãos do futuro, por isso carentes de investimentos de toda ordem.

Um segundo momento, mais recente, pode ser localizado na segunda metade do século XX. Além de objeto de proteção, a criança torna-se sujeito de direitos. As ciências sociais e humanas, bem como os movimentos sociais, defendem que suprir as necessidades das crianças no mundo contemporâneo passa, fundamentalmente, por ouvir suas vozes, por conceder-lhes plataformas por meio das quais poderão reivindicar o cumprimento de seus direitos. Essas duas percepções, a de objeto de proteção e a de sujeitos de direitos, são centrais para compreendermos as mudanças pelas quais passaram nossas noções do que é a infância e do que é ser criança.

Edufba: Há youtubers mirins com milhões de inscrições no canal. Como você explica o engajamento do público infantil em torno da figura do youtuber?

RT: No Brasil, há youtubers mirins com mais de dez milhões de assinantes nos canais. Nos Estados Unidos, de acordo com o último ranking da Forbes, o youtuber mais bem pago em 2018 foi uma criança de oito anos, com 18 milhões de inscritos. Eu diria que, para além do fato de crianças pequenas assistirem o mesmo conteúdo inúmeras vezes, conferindo aos youtubers infantis muito mais visualizações que a dos adultos, existe um processo identificatório muito potente. Ao verem crianças da mesma idade, talvez na mesma série escolar, meninas e meninos não apenas se projetam, ou seja, elas não veem apenas alguém que elas possam, um dia, tornar-se. Mais do que isso, elas identificam-se, veem alguém que elas podem tornar-se hoje. É mais do que projeção, comum com ídolos da música, do esporte, do cinema, da TV. É uma identificação.

Edufba: Qual a influência que mídias sociais como o Youtube exercem sobre o público infantil?

RT: Em minhas pesquisas não investigo efeitos de comportamento, mas analiso as repercussões sociais advindas desses usos feitos pelas crianças. O que percebo, dando continuidade ao que falei na questão anterior, é que isso oferece às crianças novas possibilidades de ser e estar no mundo. Se elas estavam sendo (e continuam) preparadas para o futuro, elas também estão descobrindo formas de atuarem na sociedade em que estão inseridas hoje. Isso interfere claramente nas hierarquias sociais, especialmente nas famílias, nas quais essas crianças ganham novos papeis. Ao perceberem que não precisam, por exemplo, de um diploma superior para serem socialmente reconhecidas, as crianças colocam-se de forma diferente nos espaços de que fazem parte.

Edufba: Quais as problemáticas envolvidas na (auto)exposição de crianças na rede?

RT: Isso depende muito de como a exposição é feita e de uma série de elementos que atravessam essa exposição. A exposição de uma menina, por exemplo, tem repercussões diferentes da exposição de um menino. Ou ainda, há canais infantis com filtros, de modo que algumas palavras, com xingamento, são impossibilitadas de aparecer. Outros não os possuem. Dando esse esclarecimento inicial, eu apontaria pelo menos uma problemática que chamou atenção em minha pesquisa.

Ao ganharem visibilidade e notabilidade nas mídias digitais, as crianças – assim como os adultos – deparam-se com uma grande inflação de imagens. Ou seja, há muita, muita, muita gente produzindo autorrepresentações, de modo que parar de fazê-lo é quase que deixar de existir, é perder esse lugar de reconhecimento. As crianças veem-se, portanto, instadas a visibilizarem-se o tempo todo, a criarem modos de estarem evidentes, de estarem visíveis, de estarem existindo, portanto. Penso que se trata de uma angústia muito grande, que tem afetado, como já vemos, os adultos e, certamente, não demorará a afetar os mais jovens.

Edufba: Deixe uma mensagem para os seus leitores e leitoras.

RT: Quando olhamos para os conteúdos consumidos pelas crianças, tendemos a julgá-los a partir do nosso próprio olhar. Isso pode levar-nos a criticar e desqualificar o que elas gostam de assistir. Minha pesquisa tem me ensinado o quão produtivo pode ser ouvir as crianças sobre o que procuram, o que as toca, o que as faz rir, o que as atrai. Se uma criança diz assistir determinado canal porque é engraçado, ela pode estar nos dizendo que rir e se divertir são coisas importantes para ela. Ter conhecimento disso é se aproximar e oferecer novos conteúdos, novas experiências, novas possibilidades. Nesse sentido, minha mensagem seria: antes de criticar, ouça.