Ladjane Sousa

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EDUFBA: Fale sobre a sua trajetória profissional e acadêmica.

LADJANE SOUSA: Olá! Sou Ladjane Alves Sousa, tenho 38 anos, filha de Edvaldo Santos Sousa, motorista do Governo Federal, e da professora aposentada Dejanira Maria Alves. A primeira vez em que estive em uma sala de aula como professora foi em março de 1997, com 16 anos. Adentrei a escola para iniciar o estágio de observação, que fazia parte do currículo da formação no magistério do ensino médio que cursava, mas fui convidada, pela gestora escolar, para atuar como professora estagiária. Desse lugar não mais saí. Hoje, sou pedagoga formada desde 2008 e mestre em Educação desde 2012, ambos os cursos pela Universidade do Estado da Bahia.

EDUFBA: De onde surgiu a ideia de escrever uma obra voltada para o público
infantil?

LADJANE: Desde muito mocinha, escrevo poesias e contos. Considero o momento de escrita um espaço profundo de intimidade comigo mesma, de autoconhecimento e formação. O escrito surgiu da necessidade de construir, entre as propostas da Escola Municipal Paulo Freire, na qual sou coordenadora pedagógica, o aprofundamento do letramento literário nas práticas escolares. A intenção inicialmente era inspirar as professoras a serem mais literárias nas práticas de ensino, pois consideramos que a literatura mobiliza a inteireza humana, a criatividade, a imaginação. Entre outras questões, a publicação dessa literatura infantil refere-se à necessidade de disponibilizar outras narrativas sobre os grupos populares e as nossas experiências cotidianas, porque é relevante construir outras referências sobre as diferentes formas de coexistir.

EDUFBA: Que tipo de questão você quis levantar com “Rainhas”?

LADJANE: “Rainhas” foi escrita com a perspectiva de traduzir o cotidiano dos sujeitos que compõem a escola e, ainda, servir como material pedagógico na formação continuada das professoras. Contribui, assim, com o desenvolvimento do projeto político pedagógico que, entre outros fatores, considera urgente problematizar as pautas dos coletivos que compõem o recinto escolar e refletir sobre nossos territórios e pertencimentos. A intenção era demarcar, de maneira lúdica, leve e prazerosa, um lugar de fala e as sensibilidades não estáticas dos subalternos.

EDUFBA: Qual a relação do livro com o seu trabalho na academia?

LADJANE: Sou pesquisadora no Grupo de Pesquisa em Educação e Currículo (Gpec) e, desde 2007, pesquiso sobre memória, currículo e grupos populares na perspectiva da história vista de baixo (SHARPE, 1992), que seria, entre outros fatores, como uma revisão da história das elites e uma síntese mais próxima da experiência do cotidiano das pessoas. A proposta era de valorizar as nossas vozes como anônimas da história e de nossos respectivos grupos e coletivos. E “Rainhas” é essa triangulação conceitual.

EDUFBA: Qual a importância da leitura durante a infância?

LADJANE: A leitura é fundamental para a formação da cidadania. Penso a leitura para além da codificação e decodificação, mas no seu sentido social, histórico. Apoio-me em Paulo Freire ao dizer que ler é para além de
caminhar sobre as letras, mas interpretar e interferir no mundo lançando nossas palavras. Desde a infância, somos sujeitos curriculantes como sugere Macedo e Azevedo, ou seja, interferimos do nosso lugar de infância no mundo. A leitura liberta o pensamento, o corpo, dá sentido a imaginação e criatividade. A leitura prazerosa mobiliza um universo interno extremamente misterioso e mágico.

EDUFBA: Que mensagem você daria aos seus leitores e leitoras?

LADJANE: As vivências no mundo são preenchidas das pautas de diversos coletivos, dentro do processo civilizatório ao qual nossa sociedade foi submetida. É preciso, desde a infância, construir experiências de felicidade sem negar ou invisibilizar nossas problemáticas sociais, corpos e territórios. Ler “Rainhas”, assim como as literaturas infantis que repensam a história dos subalternos, é preservar o direito de ser, sentir e amar nas tantas formas possíveis. As crianças têm contato com literaturas clássicas extremamente relevantes, que preservam experiências culturais de outros grupos e lugares. Entretanto, precisamos ampliar o repertório literário, para que reflita, com leveza e boniteza, quem nós somos.

Inspirada em Gloria Anzaldúa, em seu texto “Falando em línguas: uma carta para as mulheres escritoras do terceiro mundo", que lindamente citou “Escrevo para registrar o que os outros apagam quando falo, para reescrever as histórias mal escritas sobre mim, sobre você”, eu me arrisco a dizer que escrevo…

Para resgatar em mim, em ti
a parte de nós que não conhecemos
o pedaço arrancado com o racismo
e outros tantos preconceitos
mas para narrar a felicidade que construímos
imaginando que tudo que foi perdido
era essencialmente belo, força e poder
para ampliar nossas narrativas
e ler os corpos sagrados de nossas irmãs, irmãos
as mais velhas, as meninas, pequenas, bebês
que reinventarão desde agora outras formas de existir
outras narrativas de partilhar, ser, conhecer, sentir
reescrevivendo todas nós, inclusive elas próprias em si.

Obrigada por essa entrevista, pois me possibilitou fazer o que mais gosto,
como diz nossa excelentíssima escritora Conceição Evaristo,
ESCREVIVER.