Rebeca Sobral

Espaço do Autor |

EDUFBA: Fale sobre a sua formação profissional, acadêmica, pessoal.

Rebeca Sobral: Cientista política, doutora, mestra e especialista em Estudos Feministas (NEIM) com estágio docente na The Ohio StateUniversity (OSU/EUA) em 2017, (CAPES), resultando na tese “Orgulhosamente feministas, necessariamente inconvenientes?:os discursos político-poéticos-musicais recentes das feministas jovens em Salvador”.

O mestrado (CAPES) com intercâmbio de cooperação nacional e mobilidade acadêmica na Universidade Federal de Santa Catarina (PROCAD/UFSC) em 2011. Sou especialista em Gênero e Desenvolvimento Regional com concentração em Políticas Públicas (NEIM/UFBA) em 2010. Licenciada em Ciências Sociais em 2007 com intercâmbio na Vanderbilt University (EUA) (CAPES/FIPSE), além de Bacharela em Ciência Política (PIBIC/CNPq) em 2010, pela Universidade Federal da Bahia.

Autora do livro “Hip-Hop feminista? convenções de gênero e feminismo no movimento hip-hop soteropolitano” (2018) publicado pela EDUFBA/Coleção Bahianas NEIM, resultado da pesquisa de mestrado sob a orientação da Profa. Dra. Alinne Bonetti, com a orientação inicial da Profa. Ana Alice Costa (in memorian) e co-orientação do Prof. Cloves Pereira.

Também sou Pesquisadora Associada no Programa A Cor da Bahia: Programa de pesquisa e formação em relações étnico-raciais, cultura e identidade negra na Bahia (FFCH/UFBA); e, Pesquisadora Colaboradora no Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher (FFCH/NEIM/UFBA). Atualmente, professora substituta do Departamento de Estudos de Gênero e Feminismo pela Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFBA no curso de graduação Bacharelado em Gênero e Diversidade da matéria/eixo temático Gênero e Relações Raciais.

 

EDUFBA: O que despertou o seu interesse acadêmico pelo Hip-Hop? 

Rebeca: Eu tive o privilégio de ter uma bolsa de iniciação científica durante o curso de graduação com a Profa. Ana Alice Costa, em uma intensa formação para pesquisa, com o título “As mulheres baianas na luta contra a Ditadura Militar: participação e resistência”.

Na cidade de Salvador, eclodia um movimento artístico-político-cultural que estava na cena, tornando o Hip Hop o universo de pesquisa do meu trabalho naquele momento. Entre uma diversidade de assuntos, a participação política das mulheres jovens negras soteropolitanas nesse movimento social, e seus processos criativos relacionados aos elementos (rap, grafite, DJ e break) que compõem essa expressão mereciam atenção do campo de estudos de gênero e feminismos, como das relações étnico-raciais, de sexualidade e geração.

Entretanto, houveram barreiras diante da proposta do tema, quando o Programa de Pesquisa A Cor da Bahia lançou um edital para intercâmbio nos Estados Unidos pelo Projeto de Intercâmbio ‘Raça, desenvolvimento e desigualdade social’. Nas Universidades Vanderbilt, Howard e Fisk, pude cursar disciplinas, participar de eventos e ter acesso a literatura e debates sobre o tema.

 

EDUFBA: Como é ser uma mulher no meio do Hip-Hop? Comparando o momento da sua inserção nesse meio e hoje em dia, quais as diferenças existentes? Percebe mudanças em relação ao machismo/sexismo/misoginia?

Rebeca: Ser mulher nesse universo pelas hip hoppers implica em questionar a situação das mulheres dentro e fora do movimento,  sua participação em diferentes espaços de poder e de decisão, vivenciar e combater preconceito, além de compartilhar questões específicas das mulheres.

Eu tive o privilégio de acompanhar um dos seguimentos específicos do movimento com a Rede Aiyê Hip Hop, uma posse que reunia grupos, bandas e coletivos de diferentes bairros, região metropolitana e articulava junto com outras organizações do movimento baiano. Havia nessa posse o Núcleo de Mulheres que promoveu encontros estaduais de gênero e Hip Hop, dentre outras ações voltadas para o debate das relações de gênero e de interesse das mulheres, inclusive com construção de demandas para a sociedade e para o próprio movimento também. Nesse espaço tão pulsante e produtivo, a participação das mulheres era uma das questões centrais para aquela geração do movimento, além da luta pelas cotas e ações afirmativas na Universidade. Foi um momento muito rico, que posteriormente se configurou de outro modo em outras formas de articulação não tão bem demarcada como no contexto dessa posse. Foi quando no doutorado, escutando o que o campo dos movimentos de feministas jovens que pude ouvir a música feminista ou o que cantam as feministas. Assim, nos caminhos mais recentes das minhas pesquisas, foram as hip hoppers que me levaram para o Festival Vulva La Vida, um encontro musical vegano de feministas autônomas. Então, elas expandiram suas articulações e diálogos para outros campos para além desse movimento, como é próprio do processo criativo do Hip Hop global. A realização de um festival para mulheres já é uma afirmação da necessidade de continuidade e de radicalização de estratégias de combate à machismo/sexismo/misoginia na sociedade e também dentro dos diversos movimento sociais.

 

EDUFBA: Explique a ideia de “interseccionalidade” e como ela se manifesta no Hip-Hop. 

Rebeca: Esse conceito nos é útil para pensar identidades, diferenças e desigualdades sociais, diante dos aspectos em que operam as diferentes matrizes de opressão, como o racismo, o sexismo, o lgbttai+fobia, o capitalismo, operam nas relações sociais. Foi cunhado em uma perspectiva de pensamento feminista negro e da diáspora pela estadunidense Kimberly Crenshaw, e por isso nos serve como desenho teórico-metodológico para pensar as experiências de mulheres de cor e das margens, como instrumentaliza a luta contra essas discriminações. A fim de investigar a possibilidade de um hip hop feminista soteropolitano, com vistas à compreensão do feminismo na sua pluralidade como movimento social, considera-se as formas de apropriação dos discursos feministas e o engajamento em suas bandeiras na militância das interlocutoras da pesquisa. Para tanto, esse livro ressaltou-se a atenção à articulação entre os marcadores sociais de gênero, sexualidade e raça na prática política investigada em dialogo com o conceito de convenções de gênero vinculado à construção social de modelos de masculinidade e de feminilidade. Assim, assumido o método qualitativo de pesquisa, esta investigação de cunho etnográfico utilizou-se de entrevistas semiestruturadas realizadas junto às hip hoppers, bem como da observação participante oriunda da convivência junto ao grupo estudado, sob o aporte interdisciplinar dos estudos de gênero e feministas. A ideia deinterssecionalidade se manifesta na compreensão de como opera o sistema de dominação, diante identidades e situações coletivas e específicas. A exemplo do Hip Hop como um espaço masculino e masculinista diante da assimetria entre o masculino e o feminino (e não entre homens e mulheres).

Em sua resposta, a militância das hip hoppers desafiam e (re)significam os movimentos feministas a partir de referências de mulheres negras, pobres e trabalhadoras, e afirmam que o Hip Hop é coisa de menina, que lugar de mulher também é no Hip Hop, que lugar de mulher também é no grafite, no rap, no break e na militância, denunciando a estrutura sexista e questionando se é o Hip Hop um espaço de contestação das convenções de gênero ou apenas uma brecha para as mulheres, sem alterar as hierarquias de poder.

 

EDUFBA: Considerando as preocupações da sua pesquisa, como você descreveria a cena do Hip-Hop na Bahia?

Rebeca: Eu revisitei esse campo algumas vezes durante o percurso da graduação ao doutorado interessada na militância das mulheres jovens no cenário autônomo e feminista soteropolitano, seja no movimento Hip Hop e no universo anarcopunk e libertário feminista que embora não fosse exatamente nesse movimento, várias das parceiras interlocutoras da pesquisa relacionam-se com seus elementos artísticos. No caso dessa pesquisa do livro, fruto do curso de mestrado, uma das questões que me intrigavam era a ausência das mulheres nos registros sobre a história do Hip Hop, já que grande parte da literatura que circulava na época tratava da história dos homens nesse movimento. Por isso, o livro discute questões em torno das convenções de gênero e feminismo em Salvador a partir da perspectiva das jovens militantes. A escuta da voz dessas atrizes políticas e as formas de atuação promovida por elas, expõem as suas principais questões, e pautas de sua agenda transnacional ede suas gramáticas políticas. Estas compõem o universo dessa expressão recente e contemporânea dos movimentos de mulheres negras, de feministas negras, e de feministas jovens soteropolitanas que afirmaram a existência de um hip hop feminista soteropolitano.

 

EDUFBA: Qual mensagem você deixaria para as suas leitoras e os seus leitores?

Rebeca: Agradeço pelo espaço para a produção de conhecimento sobre artevismos feministas, ao que incentivo à leitura dessa obra que é uma contribuição de um registro científico sobre jovens negras hip hoppers soteropolitanas que fazem arte e política de forma autônoma, criativa e que muito nos ensinam com suas experiências e diálogos com os estudos decoloniais e interdisciplinares sobre gênero, mulheres e feminismos. Aproveito para agradecer e parabenizar a nossa querida Edufba. Sou grata pela oportunidade de compor o Espaço da Autora no mês do meu aniversário. Definitivamente é um surpreendente presente, e além de um espaço para os Estudos feministas, de gênero, e, para as mulheres neste momento atual do Brasil e do mundo. Gratidão! Vamos lá! Boa leitura!