Ygor Diego

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EDUFBA: Fale sobre a sua trajetória pessoal e acadêmica.

Ygor Diego: Sou brasileiro nascido em Lima/ Peru. Cresci na cidade de São Paulo, mais precisamente no bairro de Santo Amaro. Filho de pai peruano, arequipenho, e mãe goiana. Ambos falecidos. Fiz o ensino fundamental perto de onde residia, em colégio de freiras e, posteriormente, o ensino médio em outra escola no bairro do Paraíso. Larguei o curso de engenharia em sua metade para estudar ciências sociais na PUC/SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo).

EDUFBA: Como surgiu o seu interesse acadêmico pelos usuários de substâncias ilícitas?

Ygor: Em 1992, resolvi procurar estágio. Acabei trabalhando, pela extinta Fundap (Fundação do Desenvolvimento Administrativo), no Centro de Estudos do Instituto de Medicina Social e Criminologia de São Paulo, o Imesc. Tive como supervisora a socióloga Maria Etelvina Reis de Toledo Barros, a Telva, que era muito amiga do antropólogo Edward MacRae, que havia trabalhado no Imesc e viria ser meu orientador no doutorado, em 2011, pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia (PPGA/UFBA). O centro de estudos se dedicava à questão das drogas. Lá tive, com Telva, minha formação sobre o tema que fundamenta meu trabalho até hoje.

Nos anos 90, o uso da cocaína injetada era um sério problema de saúde pública. Fiz meu trabalho de conclusão de curso sobre este tema, em que foi muito importante uma pesquisa anterior do antropólogo Osvaldo Fernandez, que também havia sido do Imesc. Ingressei no mestrado e resolvi pesquisar a relação entre o discurso médico da primeira metade do século XX sobre a maconha e o preconceito racial no Brasil. Em ambos os trabalhos, me vali do método etnográfico. Estive com usuários de cocaína injetada e viajei até o estado do Rio Grande do Norte em busca do uso medicinal e tradicional da maconha.

No final da primeira década do século XXI, o problema central de saúde pública relacionado ao consumo de drogas era o uso do crack. Particularmente em grandes cenas abertas como a Cracolândia. Isto me motivou a escolher o tema.

EDUFBA: O que você propõe em “Jamais fomos zumbis”?

Ygor: O nome já fala a respeito do estigma do zumbi carregado pelos usuários de crack. No início da pesquisa, meu conhecimento sobre estas pessoas não se diferenciava muito do que é veiculado pela mídia. Acreditava em uma epidemia do crack e coisas assim. Isto foi mudado pelo contato com meus interlocutores. Eles me ensinaram tudo o que sei sobre a cultura do consumo de crack nas ruas e em alguns outros locais escondidos da região central de São Paulo. O subtítulo declara a importância do contexto social. Um social entendido da sua forma mais ampla, que inclui as coisas, como são os cachimbos, e até uma arquitetura própria materializada na maloca e no barraco. Algo que só percebi mais claramente após a publicação do livro. Porque trato da maloca de pano, lona ou plástico, mais que do barraco de madeira. Mas, acima de tudo, o livro propõe que para um antropólogo escrever sobre droga, se faz necessário conhecer o assunto. Ter uma base teórica que possibilite voltar o olhar e a atenção para certos aspectos da vida usando crack que, sem isso, passa desapercebido. Não considero de grande valia usar o tema das drogas para reverberar algum modismo antropológico de ocasião. O que me faz lembrar de um parecer sobre este livro, dado à editora, que exigia sua ampla reelaboração, com a retirada de toda teoria, para se adequar a um destes modismos. O prêmio da ABEU mostrou que isto estava errado. Assim sendo, o livro traz uma ampla base teórica, que fiz questão de publicar, para proporcionar um ponto de partida a todos que queiram se dedicar ao estudo e pesquisa sobre o tema das drogas. Escrever sobre drogas de um ponto de vista antropológico sem considerar todo um acúmulo de décadas, que vem desde a pesquisa seminal de Howard Becker sobre usuários de maconha, passando por Gilberto Velho, Edward MacRae, Osvaldo Fernandez e tantos outros. Pode até ser um exercício intelectual útil ao autor ou a um seleto grupo de antropólogos reunidos em torno de alguma perspectiva qualquer, mas, fora disto, corre o risco de ser uma imensa perda de tempo.

EDUFBA: Qual foi o método de pesquisa utilizado na obra?

Ygor: O método de pesquisa por excelência da antropologia é o método etnográfico. E o que é isto? Gilberto Velho declarou em uma palestra que, felizmente, se encontra disponível no YouTube – que fazer etnografia é conviver com as pessoas. Uma definição simples, concisa e, por isso mesmo, genial. Portanto, fui a campo conviver com as pessoas que usam crack diariamente. E conviver não é passar um questionário, não é permanecer distante daquele meio. Mas é se inserir no meio, humano e físico, dos nossos interlocutores. Sentar-se com eles, comer com eles, rir com eles e, até, como acabei tendo de fazer, me esconder da polícia com eles. Isto permite um ponto de vista construído sobre uma relação de qualidade, próxima, com vários interlocutores em seu meio e sob suas regras, não as minhas e muito menos as da pesquisa. Procura-se o mínimo de artificialismo e o maior número de conversas e vivências sob as condições de vida deles. Isto nos permite uma descrição densa de significados, a partir de uma realidade experimentada que questionário algum pode abarcar.

EDUFBA: Quais são os estigmas mais comuns carregados pelos usuários de crack?

Ygor: O principal deles é o de serem zumbis. O que significa isto? Quer dizer que estão mortos, mas permanecem em movimento. Além disto, o zumbi é também um comedor de carne humana viva, um monstro que deve ser abatido sem qualquer consideração, porque já morreu. As pessoas que encontrei no campo são o inverso disto. Chegam a organizar campeonatos de futebol. Então, depende do contexto social. Após ser inserido em um time ou no programa De Braços Abertos (DBA), pessoas que retiravam comida das lixeiras, que existem em alguns postes de São Paulo, passam a participar de campeonatos ou de frentes de trabalho. O estigma vai desaparecendo juntamente com a conquista do emprego formal, da volta aos estudos, à família. Com a mudança na aparência, o ganho de peso, com um novo cotidiano estruturado por atividades alheias ao consumo do crack.

EDUFBA: Como foi receber o Prêmio ABEU 2018? Foi uma surpresa?

Ygor: Foi ótimo e surpreendente. A Flávia, [diretora] da EDUFBA, não havia avisado que eu estava concorrendo. Só o fato da editora me selecionar para concorrer ao prêmio foi uma honra. Ganhar, então… Até brinco com minha esposa, de quem tive apoio incondicional nesta jornada de pesquisa no mínimo sui generis, que EU sempre achei que meu trabalho era bom. Rimos com isso. O orientador também gostou do resultado, assim como a banca examinadora. Porém, a verdade é que até tive algum retorno sobre a tese e o livro, mas, ainda assim, muito restrito. Para terem uma ideia, nunca consegui lançar o livro em São Paulo, tive pouquíssimas oportunidades de debatê-lo. Aliás, meus maiores interlocutores ainda são os usuários de crack para quem, durante a pesquisa, cheguei a entregar capítulos impressos afim de colher suas impressões após a leitura. Acabei construindo uma página no Facebook, a “Antropologia das drogas”, para postar vídeos meus sobre o livro e a tese. Mesmo assim, acho que tenho o dever de divulgar muito mais este trabalho. Ainda sobre o prêmio, tenho a dizer que por conta das posições que defendi no livro, como valorizar o DBA na época em que derrubavam o governo Dilma. Época em que falar mal do PT e de tudo que este partido fazia no governo, o que incluía o DBA, era uma quase obrigação na academia e fora dela. Por conta de todo este momento político, a divulgação desta obra, da qual me orgulho imensamente, não foi nada fácil. Infelizmente, o futuro político parece ainda mais desafiador. Só sei de uma coisa, vamos vencer.

EDUFBA: Deixe uma mensagem para seus leitores.

Ygor: Bem, para todos que se interessam pelo tema das drogas, que trabalham na área da saúde, assistência, direito e/ou são pesquisadores: quero que saibam que escrevi para vocês. Para os técnicos e profissionais, para os estudantes. Que levem à frente um trabalho e uma pesquisa ética e, por isso mesmo, humanizada. Foi o que procurei fazer à custa de muito esforço, algum risco e imenso prazer.