Rafael Azize

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1) Fale sobre a sua trajetória acadêmica e profissional.

Cheguei à filosofia por vias indiretas, como acontece amiúde na disciplina. Fiz uma graduação mista, entre Letras e Linguística, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, sem muitas intenções de vir a ter uma carreira acadêmica. Trabalhava em uma editora que fazia (e ainda faz) um trabalho de intervenção crítica e de ruptura cultural importante em Lisboa, e na época achava que era por aí que eu seguiria. Mas o impacto de leituras filosóficas feitas já no ensino médio crescia, sobretudo de autores ligados às tradições hermenêutica e pragmatista. Por conta disso, acabei por defender uma dissertação de mestrado já bastante filosófica no Programa de Pós-Graduação em Teoria Literária da Universidade Federal de Santa Catarina. O interesse por Wittgenstein, que emergiu a meio do mestrado, levou-me à Unicamp, em Campinas, onde fiz meu doutorado. Em seguida, trabalhei na UFPI, em Teresina, por dois anos antes de vir para a UFBA, em Salvador, me integrar ao departamento de filosofia. Atualmente, depois de alguns anos trabalhando sobre temas ligados à filosofia da linguagem e do conhecimento, tenho buscado articular perguntas sobre as formas pelas quais obras e experiências estéticas podem expressar ação e engajamento humano, em uma pesquisa que se move entre estética e antropologia filosóficas.

2) Como surgiu seu interesse pelo filósofo Wittgenstein?

No meu mestrado, tentei compreender os caminhos pelos quais, no interior da teoria ou filosofia da literatura da primeira metade do séc. XX, se armou entre doutrinas bastante distantes em outros aspectos uma espécie de consenso em torno da presumida inaplicabilidade da noção de intenção, enquanto um operador filosófico importante para o esclarecimento da interpretação. A filosofia madura de Wittgenstein me pareceu – e, aliás, continuo a achar isso – fornecer caminhos de respostas mais ricas e profundas a essa minha perplexidade do que as respostas que encontrei na filosofia da literatura propriamente dita, pelo menos naquela altura. É possível que hoje a minha impressão fosse diferente – talvez justamente pela influência do próprio Wittgenstein maduro.

3) Por que você não considera esse livro atual?

Fiz uma pequena provocação, quase uma piada interna, na apresentação do livro. Uma das urgências culturais do nosso tempo, acho eu, é a de treinarmos o espírito a reconhecer em qualquer campo da experiência e do conhecimento uma pluralidade de posições epistêmicas e de perspectivas possíveis – o que é diferente de um relativismo desenfreado. Talvez a excessiva profissionalização force em todos nós um tipo de competitividade que não me parece favorecer a conversação aprofundante, diria mesmo um tempo e uma paciência mais congeniais ao diálogo filosófico. Daí nasce, por vezes, uma atitude um tanto escolástica que podemos ter, ao fazer filosofia hoje, retalhando obras – e mesmo o discurso de colegas – para gerar efeitos de fascinação desencadeados por achados interpretativos, denúncias bombásticas de erros, etc. Pareceu-me ouvir nas vozes reunidas no livro uma atitude diferente.

4) Quais foram as principais aplicações do espírito da filosofia wittgensteiniana que vocês abordaram no livro? 

A ideia foi buscar aplicações do espírito da filosofia wittgensteiniana, mas também o seu sistema, a sua rede de conceitos cooperantes, a modos de articulação de problemas aos quais o filósofo deu menor atenção. O volume inclui então, por exemplo, aproximações do sistema de Wittgenstein com a hermenêutica, a fenomenologia, a psicanálise e a dialética e o ceticismo antigos. Além disso, os capítulos lançam pontes com sub-áreas pouco visitadas pela literatura de recepção wittgensteiniana, sobretudo no Brasil – tais como a filosofia da estética, da literatura, da antropologia e da educação, e mesmo a filosofia prática. Os temas específicos não deixam, contudo, de convocar eixos temáticos mais comumente encontrados na literatura, tais como a filosofia do conhecimento, a metafísica e a metafilosofia. Mas para os temas específicos, que são numerosos, convido à leitura do livro!

5) Por que escrever um livro abordando justamente o legado de Wittgenstein nas Américas?

A resposta a essa pergunta está ligada a uma contingência. É que a ideia inicial do livro era a de reunir pesquisadores presentes no XVII Congresso da Sociedade

Interamericana de Filosofia que trabalhassem em torno da obra do filósofo, sobre o qual houve um importante painel ocupando dois turnos em todos os dias do evento. A peculiaridade geográfica da origem dos colaboradores foi, assim, um tanto casual. Mas me pareceu oportuna, por várias razões. Uma delas é que não havia, que me conste, um volume assim publicado no Brasil. Além disso, o livro não deixaria de ser um pequeno tributo, ainda que tardio, ao próprio fato de um congresso de filosofia desse quilate e dimensão ter transcorrido em Salvador, fato esse a que o empenho e a iniciativa do professor João Carlos Salles foram centrais – dele e do seu grupo de pesquisa, sobre o qual há um pequeno texto incluído no livro.

6) Deixe uma mensagem para os seus leitores.

Escreve George Prochnik em artigo no The New Yorker, em 6 de fevereiro de 2017, acerca das memórias de Stefan Zweig:

[Zweig] descreve o modo pelo qual, conforme aumentava a maré de propaganda [na Alemanha] durante a Primeira Guerra, saturando jornais, revistas e rádio, as sensibilidades dos leitores se tornavam surdas. [Segundo Zweig, essa propaganda teria gerado] uma incitação artificial de emoção que culminou, inevitavelmente, num ódio e medo de massa. Descrevendo a indignação saudável que se seguiu ao clamor eloquente de um artista contra a guerra no outono de 1914, Zweig observou que, naquele momento, “a palavra ainda tinha poder. Não havia ainda sido morta pela organização de mentiras, pela ‘propaganda’.” [...] Pela altura de 1939, observou Zweig, “nenhum pronunciamento por qualquer artista que fosse tinha já o menor efeito [...] nenhum livro, panfleto, ensaio ou poema” poderia inspirar as massas a resistir ao clamor de Hitler à guerra.

Creio que é hora de nós afirmarmos novamente a filosofia, a literatura, as artes, a ciência, enfim, o pensamento e as práticas humanistas, diante de forças obscurantistas que uma vez mais emergem às ruas para abafar o pensamento crítico, para impedir a investigação crítica tanto das estruturas da vida material quanto dos modos de subjetivação contemporâneos. Já não podemos mais ignorar os alertas de que a Hidra fascista quer circular impunemente pelas ruas brasileiras. (Esta semana, na cidade de Salvador, o ICBA (Instituto Goethe) teve de fechar as suas portas contra agressores que impediram a abertura de uma exposição de arte, tal como vem acontecendo em várias outras grandes cidades brasileiras nos últimos anos.).

Considero a visão da filosofia que nos legou Wittgenstein um dos maiores monumentos humanistas criados no século passado, uma plataforma a partir da qual pensarmos reflexivamente hoje. Ela enseja um fazer filosófico como aprofundamento de, e responsabilização pelas nossas práticas com conceitos historicamente situados e cambiantes, e como estímulo a gestos imaginativos do espírito em que se desenhem, de maneira apta, figuras conceituais do pensamento crítico, e, por essa via, expansões das nossas liberdades.