Tania Risério d’Almeida Gandon

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1) Conte-nos um pouco da sua trajetória profissional e acadêmica

Decidi entrar na universidade quando minhas duas filhas entraram na escolinha maternal. Queria dar um exemplo. Quando obtive a licenciatura em História na Universidade Federal da Bahia, em 1977, meu filho Tomás já tinha nascido. Foi também na UFBA que concluí o mestrado, em 1983, com uma dissertação dirigida por “Dona” Katia, a quem devo a base da minha formação como pesquisadora. Participei da equipe formada por Katia Mattoso através de trabalhos práticos no Arquivo do Estado da Bahia. Complementei a pesquisa para o mestrado em arquivos portugueses, graças a uma bolsa da Fundação Calouste Gubenkian. A dissertação foi publicada em 1985, com o título Portugueses na Bahia na segunda metade do século XIX – emigração e comércio, pela editora da Secretaria de Estado e Emigração de Portugal, no Porto (há uma segunda edição publicada pela EDUNEB, em 2010).

Por outro lado, enquanto estava na universidade e durante mais algum tempo, participei, como voluntária, de um grupo organizado por Sérgio Farias, que desenvolvia, na década de 1980, ações para a alfabetização de adultos baseadas nos ensinamentos de Paulo Freire. O grupo está na origem do atual CECUP, e a experiência que obtive nesse trabalho inspirou-me a implantar na Fundação Cultural do Estado da Bahia  ̶  órgão público no qual trabalhei muitos anos  ̶  o Projeto História dos Bairros de Salvador. Esse projeto de pesquisa e ação social funcionou entre os anos 1983 e 1989, fundamentado na escuta e no registro de relatos sobre bairros tradicionais da cidade em entrevistas com seus antigos habitantes.

A documentação obtida no bairro de Itapuã, entre 1987 e 1989, complementada por pesquisa individual em 1991, foi a base da minha tese de doutorado, intitulada La Voix d’Itapuã: images du passé et vision du changement. Ethnotextes d’un réseau de culture populaire à l’Etat de Bahia-Brésil, dirigida por Philippe Joutard e defendida na Universidade de Aix-en-Provence, França, em 1993. Ao chegar na Provence, França, em 1989, integrei-me a um grupo de pesquisa, o CREHOP (centro de pesquisa com documentos orais), que deu origem à atual unidade e pesquisa TELEMME na MMSH (Maison Méditerranéenne de Sciences de l’Homme) de Aix-en-Provence.

Durante alguns anos participei também de vários eventos e fiz algumas conferências na Sorbonne, a convite de Katia Mattoso, deixando alguns artigos publicados em livros que ela organizou. Tenho vários artigos publicados em livros brasileiros e sobretudo franceses e o meu livro C’est le goût d’une histoire – récits et recettes de la baiana foi publicado no ano 2000, pela editora Bureau de Competences et Désirs em Marselha, França, país no qual habito atualmente.

Na Universidade Pierre Mendès-France, de Grenoble participei de várias ações do GRESAL (Groupe de Recherche sur l’Amerique Latine), tendo sido aceita também, durante alguns meses, como pesquisadora e professora convidada pelo núcleo do LARHRA (Laboratoire de Recherches Historiques Rhône-Alpes), atuante naquela universidade. Foi naquele laboratório de pesquisa que realizei um pós-doutorado no ano universitário 2005/2006. Fui também convidada duas vezes pela Universidade de La Réunion, uma ilha do oceano Índico que é um departamento francês, para falar sobre temas relativos à presença africana no Brasil.

Quanto à minha trajetória profissional na área de ensino, esta realizou-se em várias etapas, começando com a experiência em cursos secundários, passando, em seguida, pelo magistério em diferentes cursos de história da Universidade Católica de Salvador (UCSAL), até ter sido aceita por concurso na Universidade de Feira de Santana (UEFS), na qual dei aula, sobretudo, como professora especializada em Teoria e Metodologia da História e em História Oral até me aposentar em 2010. Entre os anos 1999 e 2001, fui professora visitante na Universidade Pierre Mendès-France, tendo intermediado estágios profissionais para alunos franceses na Bahia. Articulei, igualmente, estágios para estudantes dos departamentos de Português e Comércio Internacional da Universidade de Aix-en-Provence.

 2) Por que um livro sobre o bairro de Itapuã?

Antes de mais nada, porque Itapuã foi o terceiro bairro de atuação dos pesquisadores do Projeto História dos Bairros de Salvador, quando já havia garantia de um maior rigor metodológico nas entrevistas aí realizadas. É preciso não esquecer que a equipe do nosso projeto foi convidada a atuar em Itapuã, em 1987, pela Associação dos Moradores locais, a AMI, através de dois de seus membros: Raimundo Gonçalves, mais conhecido como Bujão, e Carlos Ribeiro, integrante da equipe de pesquisadores.

Em seguida, porque em Itapuã utilizamos a metodologia da pesquisa baseada em etnotextos, desenvolvida por um grupo multidisciplinar da Universidade de Provence (França), o que me possibilitou realizar uma tese de doutorada naquela universidade. Esta tese, defendida em 1993, foi traduzida para o português e publicada agora, em 2018, pela editora da UFBA (a EDUFBA) com o título A Voz de Itapuã. Trata-se da tese original, acrescida apenas de uma nova introdução e de um pequeno texto novo após a conclusão.

 3) Que relação de identidade e distanciamento sua pesquisa permitiu identificar entre Itapuã da música e Itapuã dos moradores entrevistados?

Dorival Caymmi, foi o grande divulgador da música inspirada na natureza e na vida cotidiana da comunidade dos pescadores de Itapuã. Através de suas canções, Itapuã, enquanto “lugar mítico”, passou a ser conhecido no mercado da música popular brasileira. Veranista naquele lugar na década de 1940, Caymmi interpretou em composições poéticas e musicais vários episódios que aí presenciou, ou escutou falar, como no caso daquela jangada que saiu no mar e “voltou só”. Este cantor-compositor sempre afirmou que as tradições populares baianas foram a fonte das suas criações do que chamou “Cancioneiro da Bahia”, nas quais se incluem as “canções praieiras”. Ele divulgou também, à sua maneira, textos musicais do repertório tradicional anônimo, como no caso do Rancho da Sereia.

Outros compositores como Vinícius de Moraes e Caetano Veloso, além dos atuais compositores locais, cantaram suas vivências em Itapuã, suas compoições reforçam uma imagem positiva do lugar, embora a realidade nem sempre corresponda a suas idealizações. Pelo que pudemos notar durante a pesquisa, os itapuãzeiros se reconhecem nas músicas que falam deles e do seu lugar, mesmo quando deixam entender, em entrelinhas de suas falas, que não foram os cantores que fizeram a fama de Itapuã, e sim o contrário. Como disse Seu Miguel: “Mas quem primeiro iniciou Itapuã foi pescador. Não foi veranista, não foi turista, nãi foi cantor, não! Foi pescador. ”

 4) Que impressões o leitor de A Voz de Itapuã terá do bairro?

É difícil falar sobre as impressões pessoais dos leitores, justamente por serem impressões pessoais. Gostaria inclusive de receber comentários dos leitores sobre esta questão.

O livro retrata uma Itapuã segundo as narrativas que os entrevistados nos transmitiram nas entrevistas realizadas entre 1987 e 1991. Ora, sabemos que os relatos sobre uma realidade vivida coincidem em muitos pontos com fatos reais e diferem em outros tantos quando idealizados pela memória daquele que relata. As falas apresentadas no livro foram selecionadas e agrupadas em dois grandes “tempos” do passado (o passado do que se ouviu contar, e o passado das experiências vivenciadas pelos entrevistados numa época na qual a aldeia ainda guardava suas características tradicionais) e também em um outro “tempo”, este marcado com a chegada do “progresso” de forma cada vez mais acelerada, até um momento de transformações radicais. Um momento de ruptura na maneira de viver relações sociais, econômicas e política que abalaram “raízes” culturais locais, ou seja suas tradições, assim como sua ecologia. Nas narrativas sobre a Itapuã das décadas finais do século XX mitificações são substituídas por relatos sobre problemas atuais do bairro e previsões de uma crescente crise econômica e social com seu cortejo de violência.

 5) Deixe uma mensagem para seus leitores

Espero que tenham prazer em ler A Voz de Itapuã e sobretudo que o livro lhes seja útil para novos trabalhos, assim como para novas reflexões sobre a importância da preservação do patrimônio cultural tanto material como imaterial da humanidade.