Tânia Regina Dantas

Espaço do Autor |

A professora Tânia Regina Dantas é a convidada do Espaço do Autor do mês de abril e é uma das organizadoras do livro Dialogando com a inclusão e EJA, lançado em nosso último lançamento coletivo de 2018.

Tânia Regina Dantas é doutora em Educação pela Universidade Autônoma de Barcelona (UAB), Espanha. Mestre em Ciências da Educação pela Universidade de Paris VIII. Mestre em Didática e Organização do Ensino pela UAB. Professora titular B da Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Líder do Grupo Formação, Autobiografia e Políticas Públicas no Diretório do CNPq. Uma das criadoras do Fórum EJA Bahia. Especialista em Educação de Adultos da UNEB. Autora de diversos livros sobre formação de professores, políticas públicas, prática pedagógica e educação de jovens e adultos.

Na entrevista, ela comenta sobre o quadro da educação de jovens e adultos no Brasil, abordando os avanços e dificuldades experienciadas na sua jornada enquanto professora e pesquisadora no país; carreira iniciada na década de 60, quando começou atuando na educação voltada para esse público.

1.Conte-nos um pouco sobre suas trajetórias profissional e acadêmica.

Iniciei a minha carreira como professora do antigo MOBRAL que era um curso de alfabetização de adultos, ao final da década de 60. Fiz o curso de Licenciatura em Filosofia na Universidade Federal da Bahia e sendo aprovada em concurso público, me tornei professora da Rede Municipal de Educação em Salvador, trabalhando em classe com a educação de jovens e adultos. Fui aluna do grande educador Paulo Freire em um curso de especialização em Educação de Adultos e me conscientizei que este era o meu caminho: trabalhar em prol dos excluídos, dos marginalizados, dos esquecidos. Como militante da EJA, fui uma das criadoras do Fórum EJA/Bahia, no ano de 2000, como um importante movimento social que agrega professores, gestores, ex-alunos e várias instituições públicas e privadas.Nesta direção, criei um curso de especialização em educação básica de jovens e adultos para capacitar 409 professores e gestores nesta área.Como concentrei as minhas pesquisas sobre os sujeitos da EJA e formação de professores consegui realizar um Mestrado na Universidade de Paris VIII, na França e, posteriormente, o Doutorado na Universidade Autônoma de Barcelona, na Espanha. Em 2013, como Presidente da Comissão de Elaboração da Proposta de Mestrado em EJA consegui aprovar junto à CAPES o primeiro Programa de Pós-Graduação em Educação de Jovens e Adultos, na modalidade de Mestrado Profissional no Brasil. Este Mestrado na primeira avaliação da CAPES, em 2017, passa a ter a nota 4 e com isto possibilita a proposição de um Doutorado no campo da EJA.

2.Quais as principais dificuldades no que tange a Educação de Jovens Adultos no Brasil hoje?

São inúmeras dificuldades, sendo a mais grave a ausência de uma política pública que garanta a EJA nas escolas públicas e a permanência dos alunos nas escolas para a conclusão dos seus estudos; a redução de recursos públicos para a educação atinge mais fortemente este segmento dada a sua fragilidade e segregação; outra dificuldade é a precariedade na formação dos professores que atuam na EJA, sobretudo no meio rural, não havendo a obrigatoriedade de uma formação específica para atuar neste segmento educacional.

3.Quais são os principais avanços nas políticas públicas que garantem a qualidade e o acesso da educação para essa parcela da população?

Começaria pela aprovação da LDB, em 1996, que tornou a EJA obrigatória como uma modalidade de educação básica. O Parecer do CNE11/2000 que defende o direito à educação e o respeito à diversidade dos sujeitos. A criação dos Fóruns de EJA foi um marco importante para mobilização da comunidade em prol desta modalidade, o que gerou muitas discussões e debates em encontros nacionais, regionais e locais. A instalação do GT18- EJA no âmbito da ANPED foi outro marco importante para divulgar os estudos, experiências e pesquisas neste campo. Programas como PROEJA, PROJOVEM, de certa forma, também deram uma parcela de contribuição nas políticas públicas voltadas para a formação de professores e a qualidade da educação.

4.Qual a participação de profissionais como Pró Lene, apresentada em Dialogando com a Inclusão e EJA nos avanços da EJA?

A história da Pró Lene serve como exemplo de dedicação, compromisso, tornando visível como pessoas como ela mobiliza os seus conhecimentos em prol dos mais desfavorecidos.

5.Em tempo de cortes de gastos em inúmeros setores, qual o panorama da educação, especialmente a EJA?

Panorama muito crítico porque afeta um setor já bastante relegado pelos poderes públicos, com fechamento de várias classes de EJA, remoção de professores que atuavam neste segmento. Apesar deste cenário, está acontecendo uma movimentação em termos de protestos, cartas-denúncias, Audiências Públicas em Assembleia Legislativa e Câmara Municipal para denunciar a situação calamitosa que está-se instalando no área da EJA.

6.Deixe uma mensagem para os seus leitores

Resistir sempre, trabalhar coletivamente, enfrentar os desafios, acreditar no amanhã e conjugar o verbo esperançar como nos ensinava Paulo Freire.