Luiz Eduardo Dorea

Espaço do Autor, Notícias |

No mês de outubro, o Espaço do Autor traz um bate-papo com Luiz Eduardo Dorea, autor do livro Histórias de Salvador nos nomes das suas ruas, da coleção Bahia de Todos. A obra traz o significado e a origem de diversas ruas da capital baiana, tema que tem sido pesquisado pelo autor por mais de 40 anos.

Graduado em jornalismo pela UFBA, Luiz Eduardo também é perito criminal. Nesta entrevista conversamos sobre sua trajetória como profissional, suas motivações, os desafios enfrentados por ele e seus futuros projetos.

Mariana Sales

1. Conte-nos sobre como surgiu o interesse em seguir a carreira de jornalista e a sua trajetória na área.

Literatura e muitas leituras me levaram ao Jornalismo. Sou de uma geração que viu despontar entre nós, em meio aos autores clássicos, nacionais e internacionais, um grupo de jornalistas que produzia textos jornalísticos com qualidade literária. Muitos deles aqui mesmo na Bahia, num circuito boêmio que tivemos a prazer de conhecer e admirar, inicialmente à distância. Um pouco mais tarde, como ”foca” (jornalista iniciante) na redação do extinto Diário de Notícias, numa proximidade entre tímida e respeitosa. Fazia-se aqui mesmo um Jornalismo de excelente qualidade enquanto noticiário, permeado por cadernos de cultura e suplementos literários que excelente qualidade. E a Bahia, como se costuma chamar Salvador, era alguma coisa a mais do que apenas pagode e axé, e dicionários de baianês.

2. Em Histórias de Salvador nos nomes das suas ruas o senhor revela a origem e a história de vários bairros e ruas da cidade de Salvador. O que te motivou a escrever um livro sobre o assunto?

Ao longo do tempo – desde os primórdios da fundação cidade – inúmeros pesquisadores, historiadores, jornalistas e professores têm se dedicado à pesquisa das origens dos nomes das ruas de Salvador. No meu caso em particular, foi há mais de 40 anos, quando iniciava a minha vida como repórter, no extinto Diário de Notícias, que tive minha atenção despertada para o tema, através do professor Valle Cabral. Eu o fora entrevistar sobre um tema do qual não mais me recordo, e a conversa voltou-se para a toponímia urbana da cidade.

Joaquim Seixas do Vale Cabral, escreveu sobre o tema uma curta e informativa monografia, intitulada ”Os nomes das ruas contam história”, que foi apresentada no II Congresso de História da Bahia, ocorrido em Salvador, entre 29 de junho a 5 de julho de 1952. Naquele mesmo ano, o texto foi publicado em o número 77, p. 485-490, da Revista do Instituto Histórico e Geográfico da Bahia, e foi a partir dele que desenvolvi a pesquisa que veio a resultar no meu livro publicado pela EDUFBA.

Posteriormente, em busca de mais informações sobre o assunto, retornei algumas vezes a casa dele e lá passamos várias tardes conversando sobre o tema. Ele me indicava outras fontes de pesquisa e me abriu as portas do Instituto Histórico e Geográfico da Bahia (IGHB), onde conheci historiadores como Luiz Menezes Monteiro da Costa e a professora Hildegardes Viana, que faleceram, Cid Teixeira e muitos outros.

Todo o trabalho de restauração dos nomes tradicionais teve início com aquele texto do professor Valle Cabral, desaparecido em 1973. O trabalho pioneiro foi apresentado em 1952, no II Congresso de História da Bahia, e, hoje, o nome do seu autor batiza uma rua no Bairro Itaigara. Com o desprendimento característico dos pesquisadores que acumularam, ao longo do tempo, os muitos segredos do objeto do seu estudo, ele nos honrou com o gasto do seu tempo e diversas tardes de sábado que passamos em sua companhia. As conversas aconteceram na desaparecida chácara de sua propriedade, onde ele residia, na Rua da Paciência, Nº. 110, Bairro Rio Vermelho, no local onde hoje se ergue o edifício no qual está instalada a Sociedade Caballeros de Santiago.

3. Como foi o processo de pesquisa e escrita da obra? Quais os principais desafios que você enfrentou?

Todo pesquisador sobre que, seja qual for o assunto a ser desenvolvido, o processo de busca de informações oral ou documental, é algo a ser feito com total empenho, persistência obssessivo-compulsiva e foco inteiramente paranóico. Não pode ser diferente, sob pena de se deixar passar algum dado da maior relevância, que ficará perdido exatamente naquele periódico que não se consultou, no livro que não se leu, na fonte oral não procurada para ser ouvida. Ainda hoje, continuo buscando dados para ampliar o livro, que acaba de ter a sua segunda reimpressão, que foi para as prateleiras enquanto ocorria mais recente Bienal do Livro da Bahia, em novembro do ano passado (2013), no Centro de Convenções, em Salvador .

No que se refere aos desafios, o maior deles, que continua a me motivar, é a incrível dispersão de informações sobre o tema. Muitas vezes, o dado buscado sobre um logradouro foi localizado esquecido, ou se preferir “escondido” num texto desconhecido de um antigo religioso titular de uma paróquia ou nas linhas de um romance colonial. Antigos textos sobre terreiros de candomblé, Capoeira, culinária afro-baiana, crônicas dos mais diversos autores escritas ao longo dos 475 anos de existência de Salvador, também serviram como “fonte”.

Intensa correspondência epistolar (as desaparecidas “cartas” e seus envelopes) com bibliotecas do Brasil e de Portugal, incontáveis conversas informais com amigos que moraram nos mais antigos e primevos bairros de uma Salvador desaparecida, também forneceram dados para determinar a origem do batismo de um beco, uma praia, uma praça ou uma ladeira.

Por outro lado, sem se constituir necessariamente em um enfrentamento, há que registrar as versões orais correntes para definir as origens de alguns dos nomes ainda presentes como endereço certo no cotidiano da Salvador contemporânea. Exemplos curiosos dessa criatividade popular, muito ao gosto de guias turísticos improvisados, podem ser encontrados referindo-se a diversos locais, como é o caso do Solar do Unhão, onde teria morada um ermitão que por cultivava basta cabeleira, longas barbas hirsutas e unhas nunca cortadas, de onde lhe adviria o apelido de “Unhão”, aplicado por extensão àquele local. Sem qualquer fundamento histórico, a explicação é extremamente criativa…

Há outra explicação, não menos curiosa, para o Pelourinho, segundo a qual a presença de um papagaio (ave) na porta de um dos incontáveis pardieiros ali existentes antes da reforma e da atual decandência, levaria à formação da palavra “pelourinho”, pela aglutinação da segunda parte da expressão “dá o pé lourinho”. Como se sabe, “lourinho” seria o diminutivo de “louro” forma popular de se referir ao papagaio (ave).

Há também uma cômica explicação para o nome Amaralina, que teria a sua origem na paixão de um romântico estudante soteropolitano, o qual depois de conhecer uma donzela de nome Lina, afastou-se do convívio dos colegas de copo e orgia. A “turma”, sentindo falta do moço, num fim de tarde qualquer, foi procurá-lo para mais uma noitada. Ele declinou do convite, alegando que deixara a boêmia e que daquele dia em diante viveria apenas para “amar a lina”.

Essas versões existentes para o batismo de alguns dos nossos logradouros, não têm qualquer base histórica e tiveram suas origens na imaginativa e desinformada criatividade popular. Agora, aos interessados em conhecer a verdadeira origem dos nomes acima referidos e mais alguns outros, respeitada a verdade histórica e a tradição, apesar de correr o risco de passar por cabotino, recomendo a leitura do meu livro.

4. O livro foi publicado pela EDUFBA em 2006, e ainda está ativo no catálogo da Editora sendo bastante procurado. Fazendo uma análise hoje da obra, acha que existe algum bairro ou rua que deveria ser incluído entre os citados por você?

Em crônica levada a público através de “A Nave da Palavra”, Wanderlino Arruda registra que “Lisboa é uma cidade com ruas de nomes engraçados”. Posteriormente, Felipe Jucá, naquele mesmo veículo, escreve que “em Salvador, acontece o mesmo”. Observando que “precisaria de um enorme espaço para enumerar as ruas, largos e ladeiras soteropolitanas com nomes interessantes”. No mesmo texto, ele acrescenta: “devo lembrar, que também na Bahia existe a condenável mania de se mudar nomes de ruas, por um motivo qualquer”.

Mesmo que o motivo alegado seja banal, irrelevante, irritante, irrisório, imbecil. Rompe-se, sem mais nem menos, com a tradição. Homenageia-se pessoas que o tempo, mas cedo do que se pensa, lançará no esquecimento definitivo. Gente que não nasceu com o dom da perpetuidade. “A experiência tem ensinado que não se deve mexer, sem que haja irremovíveis motivos, nos nomes de ruas quando estes são consagrados pelo povo.”

Isso posto, caberia a alguns desses incontáveis órgãos públicos promover um reestudo da toponímia urbana de Salvador, enfocando muitos outros nomes ainda não explicados na sua tradição e origem. Dois deles – “Chame-Chame” e “Pernambués” – são considerados indecifráveis por todos que, desde sempre, se interessaram pelo tema, inclusive o Mestre de todos nós, Professor Cid Teixeira.

5. Você tem outros projetos em andamento atualmente? Pretende escrever outros livros?

Conforme referi, continuo a pesquisa de mais de 40 anos sobre a origem dos nomes de ruas de Salvador. Contribuições historicamente respaldadas sempre serão bem-vindas, aceitas e agregadas a edição revista e ampliada do livro de minha autoria, que deu origem a essa entrevista.

Quanto a escrever outros livros, tenho uma produção editorial na área técnica a que me dediquei, em paralelo ao Jornalismo: a Polícia Científica, com volumes publicados pela Editora Millennium, que fica em Campinas/SP. Agora quanto a projetos de ordem pessoal, tenho pesquisa concluída para produzir um volume cujo título é Era uma vez um Detetive Inglês, detalhando nesse estudo as técnicas de Sherlock Holmes, antecipações criativas do médico inglês Conan Doyle. Nascido na Escócia, naturalidade do melhor uísque do planeta, Doyle escreveu e descreveu técnicas científicas de investigação as quais ainda hoje permanecem em uso nos departamentos de polícia científica de todo o mundo e às quais apenas foi-se agregando tecnologia na medida em que essa seguia em permanente evolução.

Por fim, que me alongo demasiado, vou agregar sob o título Confesso que esqueci, obviamente uma paródia do título da autobiografia do Neruda (Confesso que Vivi), memórias e fatos não necessariamente autobiográficos, de um tempo esquecido por esse nosso povo amnésico. Nasci em 1950 e atravessei a maior parte da segunda metade do século vinte como Jornalista e Perito Criminal, não necessariamente nessa ordem, o que me assegura a vaidade e veleidade de ter algumas coisas para colocar em letra de forma.

Se mais não fosse, como está dito num dos capítulos rascunhados sob o título Anos de Fumo, para contrapor dados mais amenos ao famigerado memorial dos ”anos de chumbo”, de extensa, renovada e inesgotável bibliografia. Os Anos de Fumo (drogas, sexo e rock and roll) encontra reflexos e tem ressonância em produções de um desaparecido Jornalismo-Literário, no qual textos CCC (claros, concisos e corretos) fizeram a felicidade dos leitores de O Pasquim, Realidade, Versos, Bondinho, onde fatos bem apurados informavam sem deformar, nem deixar margem para o atual “jornalismo do suposto”.

6. Deixe uma mensagem para os leitores da EDUFBA.

Infelizmente, somos um povo sem memória e com um profundo desprezo pela própria história, mesmo quando esta chega a ser contada com um razoável nível de credibilidade e respaldada em pesquisa bem ordenada. O estudo e o conhecimento da origem dos nomes mais tradicionais das ruas de Salvador é uma forma de preservar essa história dispersa e difusa, além de manter viva a memória de uma cidade que ainda existe. E resiste a todos os ataques mediocrizantes aos quais de duas décadas até os dias atuais é, cotidianamente, submetida. Oculta e esquecida, dentro de uma soterópolis desvairada, pretensamente moderna e inegavelmente provinciana, irreconhecível para quem estuda as origens dessa ”Lisboa tropical”, sobrevive uma Salvador antiga e amorável, preservada nos nomes das suas ruas, praças, becos e ladeiras. Acredito que cabe a um dos incontáveis órgãos públicos encarregados de incentivo ao turismo ou promoção da atual e discutível “cultura baiana”, redescobrir, reintegrar na paisagem urbana e divulgar o significado daqueles batismos históricos, deixando um pouco de lado o irrestrito apoio a tudo o que vulgariza e, inegavelmente, insulta a memória da primeira capital do Brasil.