Soleni Biscouto Fressato

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Este mês a EDUFBA abre espaço para o cinema de Amácio Mazzaropi e para Soleni Fressato, pesquisadora de sua obra e autora de Caipira sim, Trouxa não! Representações da cultura popular no cinema de Mazzaropi, publicado em 2011.

Mazzaropi foi diretor, produtor, roteirista e atuou em mais de 30 filmes de 1952 a 1980. Jeca Tatu (1959), Casinha pequenina (1962) e O Corintiano (1966) são alguns de seus filmes mais aclamados pelo público. Soleni é Doutora em Ciências Sociais pela UFBA e pesquisa representações da cultura popular no cinema, entre outros temas. Também organizou, com Jorge Nóvoa e Kristian Feigelson, o livro Cinematógrafo: um olhar sobre a história (EDUFBA, Ed. da UNESP/2009)

Nesta entrevista discutimos a influência do rádio, do teatro e da TV na concepção do personagem caipira de Mazzaropi, o preconceito que a obra do cineasta sofre da crítica especializada e da academia, além representações atuais da cultura caipira na mídia. Confira, abaixo, a entrevista na íntegra.

por Lara Bastos

03/06/2013

1) Logo nas primeiras páginas de Caipira sim, Trouxa não! fica claro que você tem uma relação muito próxima e pessoal com o cinema de Mazzaropi. Conte-nos um pouco sobre seu primeiro contato com os filmes e os motivos que a levaram a adotá-los como seu objeto de estudo.

Uma tarde de sábado, liguei a TV e estava passando Tristeza do Jeca, no Canal Brasil. Achei interessante a forma como Mazzaropi abordou a questão do coronelismo e as formas de resistência do pequeno camponês. Fiz uma pequena pesquisa na internet sobre o filme e o diretor, e percebi que existia um certo preconceito em torno do seu cinema, uma espécie de não compreensão sobre o que ele realmente tinha feito. Eu tinha identificado elementos diferentes no filme, que os críticos não falavam ou, pior, deturpavam. Lendo algumas obras chaves sobre a história do cinema brasileiro, era como se Mazzaropi não tivesse existido. Foram 32 filmes, numa carreira de mais de 30 anos, se considerarmos apenas o cinema, e, em muitos livros, não tinha nenhuma linha escrita. É como se o cinema brasileiro fosse reduzido apenas ao Cinema Novo. Às vezes um comentário sobre ele surgia quando se falava da Companhia Cinematográfica Vera Cruz, ainda assim, muito brevemente, sem destacar sua verdadeira importância na empresa.

Como na época de elaboração de minha dissertação de mestrado, no Programa de Pós-Graduação em História da UFPR, eu já havia me interessado pelo tema da cultura popular e também já tinha certeza plena e absoluta que queria fazer meu doutorado sobre representações sociais no cinema, assistindo ao filme de Mazzaropi consegui a peça fundamental que faltava para a minha pesquisa.

Nadando contra a corrente, como o próprio Mazzaropi fez no período desenvolvimentista, transformei seu caipira em objeto de pesquisa.

 

2) Antes de ingressar no cinema, Mazzaropi atuou no teatro, com a Trupe Mazzaropi, no rádio, com o programa Rancho Alegre, e com a versão televisiva do mesmo programa na TV Tupi. É possível perceber traços destas três linguagens (teatro, rádio e tevê) no cinema de Mazzaropi?

Sim, é possível. Mazzaropi criou, inspirado em muitos outros, seu personagem caipira ainda criança quando declamava poesias na escola. Esse personagem o acompanhou por toda sua carreira artística, é sempre o mesmo caipira, o mesmo jeito arrastado de andar e falar. Muitas vezes, Mazzaropi repetia até as piadas. Aquela que provocava o riso do público aparecia no programa ou no filme seguinte. Elementos cômicos que ele utilizou no circo ou no rádio, aparecem nos filmes. Assim como Geny Prado, sua fiel companheira nas filmagens, também o acompanhou no programa Rancho Alegre (tanto no rádio quanto na TV). Mazzaropi não tinha medo das repetições, nem dos clichês. Exatamente por abusar dos lugares comuns e das fórmulas que davam certo, é que resolveu abandonar a TV. Para ele, os programas semanais acabavam com o artista, que rapidamente se via sempre contando as mesmas piadas. Ver a mesma cena cômica ou ouvir a mesma piada uma vez por ano, quando seus filmes eram lançados, é diferente de uma vez por semana. Nesse caso, foi o espírito empreendedor de Mazzaropi que o conduziu na seara do cinema, para não tornar-se um repetidor de si mesmo.

 

3) Ainda hoje um dos personagens caipiras mais lembrado é o Jeca Tatu, do livro Urupês. Que características do caipira personificado por Mazzaropi diferem do estereótipo perpetuado por Monteiro Lobato?

O Jeca Tatu de Monteiro Lobato é um, o de Mazzaropi é outro. Na verdade, ainda orientado pelo seu espírito empreendedora, Mazzaropi aproveitou o sucesso do nome Jeca Tatu – na época não tanto pelos contos de Monteiro Lobato, mas muito pela publicidade do Biotônico Fontoura – para lançar o segundo filme de sua produtora, a PAM Filmes (Produções Amácio Mazzaropi).

O Jeca Tatu de Mazzaropi é preguiçoso, essa é a sua característica principal. Mas, essa preguiça não é advinda de uma doença, como em Monteiro Lobato. Ele é preguiçoso por natureza, uma espécie de apologia ao não trabalho. É importante destacar que, o personagem caipira de Mazzaropi estava na contracorrente dos pressupostos desenvolvimentistas que embalaram os anos 1950 e 1960, principalmente durante o governo de Juscelino Kubitschek. Enquanto o desenvolvimentismo defendia o progresso das cidades e a labuta diária para a formação do cidadão citadino, Mazzaropi privilegiava o meio rural e o homem do campo, mas não o homem do campo revolucionário, típico do Cinema Novo. O homem do campo de Mazzaropi é o caipira da região Sudeste do país, que encontra nas relações de compadrio sua forma de subsistência.

Destaco ainda que na memória coletiva do brasileiro o Jeca Tatu de Mazzaropi, por ser visual, mas, sobretudo, por ser uma forma de resistência às relações de trabalho capitalistas, levando o público à identificação, é mais lembrado que o Jeca Tatu de Monteiro Lobato.

 

4) Humoristas como Tom Cavalcante e Tiririca, que incorporam o caipira do interior do Ceará, e Pedro Bismarck, que criou o personagem Nerso da Capitinga, exploraram o estereótipo do caipira em programas de grande audiência na televisão. Em sua opinião, estas representações da cultura caipira são positivas ou negativas?

Não conheço suficientemente bem os personagens citados para afirmar com segurança se é uma representação positiva ou negativa do caipira.

Sem dúvida, infelizmente, concordando com Mazzaropi, os programas televisivos empobrecem, quando não eliminam, o talento de muitos artistas. Digo infelizmente, porque a TV é o grande veículo de comunicação das grandes massas, a grande maioria das pessoas são informadas, formadas e bestializadas a partir de seus programas, que traz como marca registrada a repetição. As emissoras de TV possuem capital, tanto financeiro, como intelectual, para fazerem programas de boa qualidade, mas preferem exagerar no mau gosto e na falta de senso crítico.

Sou contra toda e qualquer representação que reduza o caipira a um ser idiotizado e ridicularizado pelos, supostamente, mais inteligentes. Grande parcela da população brasileira se identifica e se reconhece com o personagem caipira, ridicularizar e diminuir esse personagem é um desrespeito com essa população.

 

5) Dentre os filmes em que Mazzaropi atuou, escreveu e dirigiu, é possível identificar qual seria sua obra-prima?

Alguns críticos de seu cinema afirmam que o melhor e principal filme foi Casinha pequenina de 1963. Para mim, ele marca o início de um cinema exclusivamente comercial na carreira de Mazzaropi. A experiência com o cinema carioca, muito próximo da chanchada, é significativa em sua produção.

Mas o filme principal de sua carreira realmente é Jeca Tatu, de 1959. É nesse filme que ele imortaliza o personagem caipira, sagaz e irreverente, nada trouxa – como afirma o título de meu livro – que levará à identificação gerações de brasileiros do interior, principalmente das regiões Sul e Sudeste.

 

6) Deixe um recado para os leitores da EDUFBA.

Quando forem elaborar seu objetos de pesquisa, escolham algo prazeroso. Os anos de leituras e pesquisas são pesados e, inevitavelmente, chega um momento que não aguentamos mais carregar o penoso fardo de nossa própria pesquisa. Nesses momentos, o que nos salva é o prazer que sentimos em trabalhar com aquele objeto. Foi este o principal critério que utilizei para cunhar meu objeto de pesquisa do doutorado, que fiz junto ao Programa de Pós-Gradução em Ciências Sociais da UFBA, e deu certo! Foram seis anos assistindo os filmes de Mazzaropi, lendo, refletindo, e foram anos maravilhosos, de proveito e prazer plenos. O resultado é o livro que publiquei pela EDUFBA, Caipira sim, trouxa não!. Quem lê gosta, o prazer que tive em escrever é extensivo a quem lê.