Itania Maria Mota Gomes

Espaço do Autor |

Neste mês, o Espaço do Autor EDUFBA apresenta uma entrevista com Itania Maria Mota Gomes, organizadora dos livros Comunicação e estudos culturais, em parceria com Jeder Janotti Junior; Gêneros televisivos e modos de endereçamento no telejornalismo; Televisão e realidade; entre outros publicados pela Editora da Universidade Federal da Bahia.

Itania é graduada em jornalismo pela UFBA, mestre e doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela mesma instituição, e pesquisadora na área de Comunicação, com ênfase em análise do telejornalismo, estudos culturais, estudos de recepção e teorias da comunicação e do jornalismo. Nesta entrevista conversamos sobre sua trajetória profissional, as obras que organizara, e seus futuros projetos. Confira abaixo na íntegra.

 

Daniele Marques

02/05/2013 

 

1 – Como surgiu o interesse em se graduar em jornalismo e se especializar na análise de telejornalismo e nos estudos culturais?

 

Creio que o interesse em fazer jornalismo foi motivado por meu consumo quase compulsivo de livros e jornais e por meu interesse em cinema – eu queria fazer crítica cinematográfica. A análise de telejornalismo é uma preocupação mais recente e é uma consequência dos meus esforços por pensar o que significa estudar o jornalismo a partir de uma perspectiva cultural, a partir da perspectiva dos estudos culturais. O que me move é o interesse por compreender as práticas e instituições a partir de suas relações com a sociedade e as transformações sociais. Isso, creio, me dá alguma abertura para análise da cultura contemporânea, essa que construímos no aqui/agora, mas me serve também de antídoto contra qualquer populismo político ou cultural. Olhar a cultura contemporânea a partir dos estudos culturais me permite avaliar o que se faz efetivamente no telejornalismo que nós assistimos, sem perder de vista as articulações entre comunicação, cultura, poder e sociedade. Assim, mais do que apressadamente julgar – e descartar – os programas jornalísticos que temos na nossa televisão, seja do ponto de vista ético, político ou estético, interessa-me compreender os contextos que tornam esses programas possíveis. Que características há, na sociedade brasileira, que tornam possível o uso indiscriminado, por exemplo, das câmeras ocultas nos telejornais e outros programas jornalísticos? Que valores nossa sociedade partilha? Que história social, cultural e política construiu esses valores e a nossa relação, hoje, com a câmera oculta?

 

2 – Além de jornalista por formação, você também é graduada em Assistência Social pela UCSal. Você também atua ou atuou nesta área?

 

Fiz o curso de Serviço Social paralelamente ao de Jornalismo, mas atuei por pouquíssimo tempo em Serviço Social. Na verdade, não prestei vestibular para Serviço Social pensando em atuar na área, isso nunca foi um desejo, nem quando escolhi o curso nem depois, ao longo dos semestres. Só vislumbrei atuar em Serviço Social quando comecei o estágio obrigatório, que fiz no IPAC e foi uma experiência muito marcante, decisiva mesmo na minha formação política. Mas a escolha do vestibular foi porque eu queria fazer Jornalismo e Sociologia, e não era possível fazer os dois cursos em universidade pública, então optei por jornalismo na UFBA e Serviço Social era o mais próximo de Sociologia que eu encontrei na Católica.

 

3 – Em sua opinião, qual a importância dos estudos culturais para o nosso cotidiano?

 

Os estudos culturais são uma corrente de investigação que põe o foco da sua atenção no processo ativo e consciente de construção de sentido na cultura – e é, sobretudo, isso que me interessa no trabalho deles. Ao se configurarem como uma abordagem altamente contextual, um método de análise variável, flexível e crítico, como uma aposta numa abordagem interdisciplinar da cultura, os estudos culturais criam as condições para estarmos em permanente diálogo com os problemas suscitados por conjunturas históricas específicas. Ao mesmo tempo, nos estudos culturais, ao menos na tradição inglesa, analisar a cultura não é nunca algo que se faça de olhos fechados para as relações de desigualdade econômicas, sociais, políticas; não é nunca algo que se desvie da consideração absolutamente forte das articulações entre cultura, poder, sociedade. É nesse sentido que eu diria que há uma posição política na minha vinculação intelectual aos estudos culturais, na minha opção por analisar a cultura – e o jornalismo é uma prática cultural – a partir do olhar dos estudos culturais: analisar a cultura é, para mim, descobrir os modos de construir uma alternativa de organização social ao capitalismo. Nesse sentido, sim, os estudos culturais são importantes para a nossa vida cotidiana, mas são absolutamente fundamentais para o nosso futuro, para o modo como, compreendendo a vida cotidiana, o nosso tempo presente, podemos transformar nosso futuro.

 

4 – Você já lançou alguns livros sobre comunicação, estudos culturais e telejornalismo, como o mais recente Comunicação e estudos culturais e também Televisão e realidade. Como foi o processo de concepção destas obras?

 

Esses dois livros tiveram motivações diferentes. O Comunicação e estudos culturais foi concebido a partir do reconhecimento de que, apesar da imensa contribuição dos estudos culturais para a interpretação dos processos comunicativos, o acesso aos textos e autores fundamentais dos estudos culturais entre nós era bastante dificultado pela inexistência de traduções, o que dificultava enormemente, por exemplo, a oferta de disciplinas de graduação. Ao mesmo tempo, havia o reconhecimento de que pesquisadores brasileiros fazem apropriações muito particulares da tradição dos estudos culturais para a investigação em Comunicação. Então, o livro foi organizado em torno de como pesquisadores brasileiros se apropriam, em seus esforços de pesquisa, da contribuição dos autores mais importantes na trajetória intelectual dos estudos culturais. O Televisão e Realidade reúne os textos apresentados em um evento internacional que organizamos no PósCom/UFBA em 2008. Ele é fruto da interlocução acadêmica que realizamos sobre os processos e produtos televisivos de abordagem do real. O mais interessante nesse livro é que os artigos problematizam as concepções a priori que circulam no nosso campo de estudos seja sobre o real seja sobre a televisão, recusam o caráter essencialmente evidente da relação entre TV e real e se perguntam sobre o que significa falar de realidade quando falamos em televisão.

 

5 – Em junho deste ano você irá lançar mais um livro pela EDUFBA: Análise de telejornalismo: desafios teórico-metodológicos. Qual é a sua expectativa para este lançamento?

 

Minha expectativa é que os colegas e alunos possam tomar contato mais próximo com a investigação que fazemos no Grupo de Pesquisa em Análise de Telejornalismo e com a interlocução que temos com pesquisadores das áreas de televisão e jornalismo do país e do exterior. Vários dos autores que participam do livro estarão presentes, já que o lançamento acontecerá durante o 22º Encontro Anual da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação/Compós e na mesma semana em que realizaremos o Seminário Internacional Estudos de Televisão Brasil-França, que terá a participação dos autores franceses que têm artigos no livro.

 

6 – Deixe uma mensagem para os leitores da EDUFBA.

 

Posso deixar um convite? Aliás, dois? Um dos principais investigadores dos estudos culturais, Lawrence Grossberg, professor da Universidade da Carolina do Norte, estará em Salvador em junho, e ministrará um curso no dia 4 de junho, como parte das atividades do Encontro Anual da Compós/2013: http://encontro2013.compos.org.br/

Para aqueles interessados em televisão e telejornalismo, no dia 3 de junho teremos o Seminário Internacional Estudos de Televisão Brasil-França, com inscrições gratuitas: www.telejornalismo.facom.ufba.br